Das 147 seções eleitorais com unanimidade de votos no segundo turno presidencial, 97% concentraram-se em território nacional. Os 3% restantes revelam padrões de votação em comunidades brasileiras no exterior, particularmente na América Latina.
Enquanto Lula obteve apoio total em cidades argentinas e cubanas, Bolsonaro conquistou adesão integral apenas entre eleitores registrados na Venezuela – ainda que o processo ocorresse fisicamente na Colômbia.
O transporte das urnas de Caracas para Bogotá resultou de decisão administrativa do TRE-DF, responsável pelo processo eleitoral no exterior. Essa logística peculiar não impediu a manifestação política: os seis eleitores aptos a votar na circunscrição venezuelana optaram pelo então presidente da época. O número representa 0,0004% do total de votos válidos no pleito, mas ganha relevância simbólica no contexto geopolítico.
A operação para viabilizar os seis votos exigiu coordenação entre embaixadas brasileiras na Venezuela e Colômbia, com custos operacionais que superaram R$ 18 mil por eleitor – 15 vezes o valor médio gasto no Brasil.

Realidades políticas em território estrangeiro
A seção venezuelana destaca-se por ocorrer em país governado por Nicolás Maduro, aliado histórico de Lula. A polarização brasileira refletiu-se nesse pequeno grupo: enquanto o governo local mantém relações tensas com Bolsonaro, a comunidade expatriada manifestou apoio contundente ao ex-presidente. Esse fenômeno repete padrões observados em diásporas políticas, onde posicionamentos radicais tendem a se intensificar.
Dados do TSE indicam que 71% dos brasileiros residentes na Venezuela em 2022 eram homens entre 35-49 anos, perfil demográfico que historicamente apresentou maior adesão a Bolsonaro. O reduzido número de eleitores (0,3% dos 20 mil brasileiros no país) sugere autosseleção: apenas cidadãos com forte motivação política realizaram o deslocamento de 1.127 km até Bogotá para votar.


