Assinantes

Assinantes

Lei do Superendividamento

Por que algumas pessoas falam que a lei não pegou?

Leandro Provenzano

31/07/2025 - 00h03

Você já ouviu falar da “Lei do Superendividamento”? Provavelmente não. E se ouviu, pode ter achado que ela serviria apenas para quem vive com o nome no Serasa. Mas a verdade é que, mesmo entre famílias de classe média alta, o superendividamento virou realidade — e a lei, que nasceu para proteger o consumidor, ainda não virou solução.

A Lei nº 14.181/2021 completou quatro anos. Ela foi criada com uma missão nobre: proteger o consumidor de boa-fé que, por algum motivo, já não consegue pagar todas as suas dívidas sem comprometer o básico para viver. Parece simples. Mas a prática tem se mostrado diferente.

A lei existe, mas quase ninguém consegue usar

É comum dizer no Brasil que certas leis “não pegam”. E, no caso da Lei do Superendividamento, essa expressão cabe como uma luva.

O motivo? Ela exige do consumidor algo difícil de provar: que está endividado, mas ainda merece crédito moral e jurídico. Ele precisa comprovar que não agiu com má-fé, que ainda tem renda e que só quer reorganizar sua vida sem perder o mínimo necessário para viver.

O conceito de “mínimo existencial”, inclusive, virou um enigma. A lei não diz claramente o que é. Cada Tribunal possui um entendimento diferente. E enquanto isso, os bancos continuam cobrando sem piedade, e a maioria dos consumidores nem sabe que pode pedir ajuda.

Tribunais e Procons ainda não têm estrutura

O problema não é só do texto da lei. Os órgãos públicos que deveriam colocar essa engrenagem para funcionar ainda estão engatinhando. A lei foi publicada, mas não houve uma implantação técnica nos Tribunais e nos Órgãos de Proteção ao Consumidor, de modo que cada um deles tenta fazer o trabalho, que na prática tem se tornado muito difícil diante da complexidade que envolve trabalhar globalmente a dívida de uma pessoa superendividada.

Em alguns estados, como São Paulo, há iniciativas promissoras, com audiências coletivas e planos de pagamento supervisionados. Mas em grande parte do país, isso ainda não saiu do papel.

No Judiciário, há juízes sensíveis ao tema. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, por exemplo, tem decisões determinando a suspensão dos juros enquanto o consumidor tenta negociar. Mas em outros estados, os processos são tratados como ações comuns de cobrança, e os bancos raramente aceitam acordos que realmente aliviem a situação.

Aqui em Mato Grosso do Sul, por exemplo, possui um agravante quando o superendividado é servidor público, pois hoje os servidores públicos do estado podem comprometer até 70% de seu salário com empréstimos, cartões de créditos e adiantamento salarial.

Isso somado ao plano de saúde, pagamento da previdência e de imposto de renda deixa muitos servidores sem dinheiro necessário para sobreviver. Não é raro encontrarmos servidores públicos estaduais com bons salários passando por uma situação assim.

E o que o consumidor pode fazer, então?

Mesmo com tantas dificuldades, a lei não é inútil. Ela pode sim ser usada como instrumento de reestruturação financeira — desde que bem orientada. Aqui estão três caminhos possíveis para quem está afundado em dívidas:

1. Organize todas as suas dívidas com clareza

Reúna contratos, extratos e simule o valor total de cada compromisso. Isso será necessário se você quiser iniciar um pedido judicial.

2. Busque um plano judicial com ajuda profissional

É possível ajuizar uma ação com base na lei e apresentar um plano de pagamento em até 5 anos, preservando o mínimo existencial. Se os bancos não aceitarem, o juiz pode impor um plano judicial obrigatório.

3. Evite dívidas novas enquanto reorganiza a vida

A lei exige que o consumidor esteja de boa-fé, ou seja, sem continuar acumulando dívidas. A fase é de freio, não de mais parcelamento.

A mudança começa na conscientização

A Lei do Superendividamento é boa. O que falta é torná-la conhecida, exigida e aplicada.

Enquanto isso, quem tem boa orientação jurídica pode fazer valer seus direitos, reorganizar as finanças e reconquistar a tranquilidade que o crédito desordenado levou embora.

Se você — ou alguém da sua família — sente que está trabalhando apenas para pagar juros, talvez seja hora de virar a página.

Porque dívida não pode ser prisão vitalícia. E a justiça, quando provocada da maneira certa, pode ser o melhor caminho para respirar de novo.

Assinantes

Quando a recomendação de investimento vira prejuízo: o que o investidor pode cobrar na Justiça

29/10/2026 00h03

Leandro Provenzano

Leandro Provenzano Foto: Montagem / Correio do Estado

Continue Lendo...

Assinantes

Se o funcionário sair, o conhecimento sai junto?

Muitas empresas acreditam ter processos, mas dependem da memória de algumas pessoas; Quando elas saem, levam consigo clientes, decisões e conhecimentos que nunca pertenceram verdadeiramente à organização

27/10/2026 00h03

COLUNISTA ARTHUR MAXIMILIANO

COLUNISTA ARTHUR MAXIMILIANO

Continue Lendo...

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).