A hegemonia do dólar americano no sistema financeiro internacional, consolidada desde os Acordos de Bretton Woods em 1944, dados do FMI revelam que o dólar ainda domina 96% das faturas comerciais nas Américas, 74% na região da Ásia-Pacífico e 79% no resto do mundo.
A pergunta que se faz é: a criação de moedas alternativas ao dólar para transações internacionais emerge como uma estratégia técnica para reduzir vulnerabilidades cambiais? ou, uma estratégia política?
O dólar americano mantém uma posição privilegiada no sistema monetário internacional que se traduz em números impressionantes. Segundo dados do FMI para o período 1999-2019, a moeda americana representa a esmagadora maioria das transações comerciais globais. Esta dominância confere aos Estados Unidos um "privilégio estratégico" – pois da capacidade de financiar déficits comerciais emitindo sua própria moeda e influenciar a economia global através de sua política monetária.
Quais as críticas em relação a hegemonia - cria assimetrias significativas. Países emergentes ficam expostos às decisões do Federal Reserve (FED), como demonstrado durante a crise financeira de 2008-2009. As políticas anticíclicas adotadas pelo FED exportaram inflação para economias emergentes e forçaram a desvalorização do dólar, prejudicando a competitividade de suas exportações em um contexto de desaceleração global.
O euro, a mais bem-sucedida moeda alternativa ao dólar, oferece lições importantes. Mesmo após mais de duas décadas de existência e consolidação, os dados da Eurostat para 2023 mostram que o euro foi usado em apenas 51,6% das exportações dos países europeus, com o dólar mantendo 31,6% de participação. Nas importações, a situação se inverte: o dólar domina com 50,3% contra 41,2% do euro. Estes números demonstram que mesmo em sua zona de influência natural, uma moeda alternativa enfrenta dificuldades para suplantar completamente o dólar.
O Movimento BRICS e a Estratégia de Desdolarização
O BRICS emergiu como protagonista do processo de desdolarização após a crise financeira de 2008-2009, quando os países emergentes perceberam sua vulnerabilidade às decisões monetárias americanas. Embora inicialmente menos expostos aos títulos de alto risco que desencadearam a crise do subprime, esses países sofreram os efeitos posteriores via dólar, com as políticas do FED exportando inflação e afetando sua competitividade.
Desde sua institucionalização, o BRICS defende três pilares fundamentais: a reforma das cotas de votação do FMI e Banco Mundial, a redução da dependência do dólar e o fortalecimento do G20 como principal fórum de governança financeira internacional. O objetivo é reduzir a vulnerabilidade a políticas macroeconômicas americanas.
A desdolarização representa mais que uma mudança técnica nos sistemas de pagamento; constitui uma estratégia política. A ameaça do ex-presidente Donald Trump de impor tarifas adicionais de 10% sobre países que adotassem medidas "antiamericanas" relacionadas ao BRICS ilustra a dimensão geopolítica dessa questão.
A transição para moedas alternativas enfrenta desafios substanciais. O risco de corridas bancárias representa uma preocupação central: cidadãos poderiam retirar dinheiro dos bancos massivamente para adquirir CBDCs, afetando a capacidade de empréstimo bancário e causando choques nas taxas de juros. Este risco é especialmente problemático para países com sistemas financeiros instáveis.
Riscos operacionais também são significativos. CBDCs são vulneráveis a ataques cibernéticos e requerem infraestrutura tecnológica robusta. Além disso, necessitam de marcos regulatórios complexos incluindo padrões de privacidade, proteção ao consumidor e combate à lavagem de dinheiro.
Nesta coluna, a análise mostra que criar uma moeda alternativa depende de fundamentos técnicos e as consequências podem ser políticas. O Brasil está fazendo atualmente uma reação inversa, levando para a política o assunto técnico. Ou seja, mais uma vez trocando a oportunidade de realizar estudo profundo e técnico para analisar os prós e contras desta alternativa, e, lembrando que o Brasil tem várias demandas muito mais importante neste momento.