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Do Vale da Celulose ao Vale do Silício Pantaneiro

Michel Constantino

21/10/2025 - 00h04

Na coluna de hoje eu trago uma proposta para nosso estado, um conjunto de estratégias para o avanço nos próximos 5 anos. Do Vale da Celulose ao Vale do Silício Pantaneiro - 4 Estratégias para a Transformação do Mato Grosso do Sul.

O Mato Grosso do Sul, atualmente reconhecido como o "Vale da Celulose" devido à sua pujante indústria de papel e celulose, que representa 10,7% do PIB estadual, encontra-se em um ponto de inflexão. O forte crescimento deste setor, embora lucrativo, apresenta desafios e limita o potencial de desenvolvimento a longo prazo.

Em contrapartida, o estado já demonstra um ecossistema de inovação emergente, com 595 startups ativas e liderança no Centro-Oeste. A transformação para um "Vale do Silício Pantaneiro" não é apenas uma visão, mas uma meta estratégica alcançável nos próximos cinco anos. Alguns pilares estratégicos são apresentados aqui para guiar essa transição, aproveitando as vocações naturais do estado e as lições de polos tecnológicos consolidados no Brasil.

A principal vocação econômica do Mato Grosso do Sul é o agronegócio. A transformação digital não deve competir com este setor, mas sim potencializá-lo. A estratégia consiste em posicionar o estado como líder em tecnologias para o agronegócio sustentável e a bioeconomia, transformando a expertise existente em um diferencial competitivo no mercado de tecnologia.

  • Ações:

     

    • Criação de um Centro de Inovação em Agrotecnologia e Bioeconomia: Um hub físico e digital para conectar startups, produtores rurais, universidades e investidores, fomentando a pesquisa e o desenvolvimento de soluções para os desafios do campo (ex: rastreabilidade, manejo de precisão, biotecnologia).

    • Programas de Aceleração Temáticos: Lançar programas de aceleração focados em "dores" específicas do agronegócio local, como pecuária de corte, produção de grãos e a própria indústria de celulose, buscando otimização e sustentabilidade.

    • Fomento à Agricultura Digital: Incentivar a adoção de tecnologias como IoT, drones e análise de dados nas fazendas, através de linhas de crédito especiais e programas de capacitação para produtores rurais.

    • Potencialização do Capital Humano: Investir em qualificação de mão de obra de alto nível e complexidade – doutorandos e doutores talentosos com bolsas que incentivam ficar em MS e produzir soluções para essas áreas estratégicas.

  • Inspiração: Assim como Florianópolis se aproveitou da sua vocação para o turismo e qualidade de vida, e Recife da sua localização estratégica, o MS deve abraçar sua identidade agro para construir um polo tecnológico único - Vale do Silício Pantaneiro.

Governança "Triple Helix" e Incentivos Inteligentes

O sucesso dos polos de Recife e Florianópolis é indissociável de um modelo de governança que articula poder público, setor privado e academia (Triple Helix). O Mato Grosso do Sul precisa formalizar e fortalecer essa colaboração, criando um ambiente de negócios favorável e com segurança jurídica para a inovação.

Criação do "Instituto MS Tech": Uma organização social, a exemplo do Porto Digital, para gerir o polo tecnológico, com autonomia e governança compartilhada entre governo, empresas e universidades. Esta entidade seria responsável pela atração de investimentos, gestão de incentivos e articulação do ecossistema.

  • Revisão e Ampliação dos Incentivos Fiscais: Além da redução do ISS, como no Porto Digital, criar um "pacote de boas-vindas" para empresas de tecnologia, incluindo benefícios em ICMS para equipamentos, e apoio na instalação e contratação de pessoal.

  • Marco Legal da Inovação Estadual: Regulamentar e agilizar a aplicação da Lei de Inovação, facilitando compras públicas de soluções de startups e a criação de ambientes de testes (sandboxes regulatórios) para novas tecnologias.

  • Inspiração: O modelo de gestão do Porto Digital, uma Organização Social que atua como braço executor de uma política pública de longo prazo, é a principal referência para a criação de uma estrutura de governança eficaz.

Capital Humano Pantaneiro: Formação e Atração de Talentos

Não há polo tecnológico sem talentos. Com 243 empresas já utilizando IA e Machine Learning, a demanda por profissionais qualificados é crescente. A estratégia é criar um ciclo virtuoso de formação, retenção e atração de capital humano, com foco nas tecnologias do futuro.

Programa "Residência Tecnológica Pantaneira": Inspirado no Porto Digital, criar um programa em parceria com as universidades locais, onde estudantes dos últimos anos de cursos de tecnologia trabalham em projetos reais de empresas do ecossistema, garantindo experiência prática e alta empregabilidade.

  • Bolsas de Estudo "MS Tech": Um programa de bolsas para cursos de graduação e pós-graduação em áreas estratégicas (Ciência de Dados, IA, Cibersegurança), condicionado a um período de trabalho em empresas do estado.

  • Campanha de Atração de Talentos: Divulgar nacionalmente as oportunidades e a qualidade de vida no Mato Grosso do Sul, com foco em atrair profissionais seniores e nômades digitais, oferecendo-lhes um ambiente vibrante e conectado à natureza única do Pantanal.

  • Inspiração: Florianópolis se tornou a "Ilha do Silício" não apenas pela tecnologia, mas pela qualidade de vida. O MS pode se posicionar como o "Vale do Silício Pantaneiro", onde se pode trabalhar com tecnologia de ponta e, ao mesmo tempo, ter uma conexão única com a natureza.

Infraestrutura e Conectividade para o Futuro

Para suportar a digitalização da economia, é fundamental garantir uma infraestrutura de conectividade robusta e acessível em todo o território, especialmente nas áreas rurais e nos novos distritos de inovação.

Expansão da Fibra Óptica: Um plano estadual agressivo para levar internet de alta velocidade para todos os municípios, com especial atenção às áreas com potencial para o agronegócio e o turismo tecnológico.

  • Criação de Distritos de Inovação: Além de Campo Grande, eleger cidades estratégicas como Dourados e Três Lagoas para receberem "mini-hubs" de inovação, com coworking, laboratórios e infraestrutura compartilhada, a exemplo da interiorização do Porto Digital para Caruaru.

  • Conectividade no Campo (5G): Liderar a implementação da tecnologia 5G nas zonas rurais, em parceria com as operadoras, para viabilizar a agricultura de precisão e a IoT em larga escala.

  • Inspiração: A revitalização do centro histórico de Recife pelo Porto Digital mostra que a criação de um polo tecnológico pode ser também um projeto de desenvolvimento urbano e regional, requalificando áreas e criando novos centros de gravidade econômica.

A transformação do Mato Grosso do Sul em um "Vale do Silício Pantaneiro" é um projeto ambicioso, mas plenamente realizável. Requer visão de longo prazo, investimento estratégico e, acima de tudo, a colaboração entre todos os atores da sociedade. Ao focar em suas vocações naturais, aprender com os casos de sucesso e investir na formação de seus talentos, o estado pode, em cinco anos, não apenas diversificar sua economia, mas se tornar um modelo de desenvolvimento tecnológico sustentável para o Brasil e para o mundo.

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