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O drama da falta de políticas consistentes de moradia e saúde

Moradores comentaram mudanças na cor da água e um cheiro pútrido vindo das valas de esgoto a céu aberto e dos desmoronamentos

Cauê Reis

09/03/2023 - 07h30

Vira e mexe, vem-me à memória minha época de escola. Português era Português, Matemática era Matemática; o mundo parecia menos complexo quando o conhecimento era compartimentado pelos professores em diferentes matérias.

Depois, ao me formar e deixar os muros do colégio, percebi que a vida é uma mistura caótica de tudo, com números, letras e conceitos que se fundem.

Há biologia dentro da história. Há química dentro da geografia. Pensemos, por exemplo, no que é necessário para ser uma pessoa saudável. Manter uma boa alimentação, praticar atividades físicas, dormir bem, ir ao médico com regularidade. Todos sabem.

Mas e o lugar onde moramos? As horas que levamos de casa até o trabalho? O dinheiro que temos no bolso? Pode não parecer, mas tudo isso influencia diretamente a nossa saúde. Portanto, é essencial lidar com essas diversas variáveis ao mesmo tempo para viver com qualidade.

Há, no entanto, muitas pessoas (às vezes bem perto de nós) que não têm acesso a saneamento básico ou à assistência médica; que moram em áreas de risco; que sentem o estômago roncar quando falta comida; que mal dormem, porque labutam durante a maior parte do dia e dependem de um sistema de transporte ineficiente, que lhes rouba horas de sono.

Ao fim de fevereiro – como acontece a cada verão em diversas partes do Brasil –, o litoral norte de São Paulo sofreu com a grande quantidade de chuvas.

O alto índice pluviométrico, combinado com a desigualdade social e a falta de políticas públicas eficazes, que permitiram que habitações fossem construídas em zonas inadequadas, ceifou a vida de homens, mulheres e crianças.

Menos de uma semana após a tragédia, como era de se esperar, os casos de gastroenterite cresceram nas áreas atingidas. Em São Sebastião, cidade que ficou coberta por água e lama, a procura por atendimento médico aumentou 30%, com pessoas relatando dores de estômago, náuseas, diarreias.

Moradores comentaram mudanças na cor da água e um cheiro pútrido vindo das valas de esgoto a céu aberto e dos desmoronamentos.

Podemos citar outras cidades bastante desiguais, Rio de Janeiro e Recife, que têm mais de 20% da sua população residindo em favelas e construções de risco. Em 2017, de acordo com o Ministério da Saúde, o Rio teve uma média de 88,5 casos de tuberculose a cada 100 mil habitantes; Recife, 85,5.

Doenças como essa estão ligadas ao contato social – domicílios com pessoas aglomeradas e pouca circulação de ar, assim, fazem com que a tuberculose se propague.

É especialmente nestes momentos que pensar em saúde significa levar em conta geografia, matemática, história, sociologia...

Não devemos nos esquecer das catástrofes, dos desequilíbrios sociais, dos nossos péssimos índices, e nem colocá-los na conta do acaso.

Vivendo em um país em que a dor de uns gera lucro para outros, o que precisamos fazer é cobrar a elaboração de políticas públicas que melhorem a vida dos que mais precisam.

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