Ao fim de cada ano, somos tomados pelas dúvidas do passado e pela agonia e pelas incertezas do futuro. Sobre o passado, em excesso pode gerar remorso. Sobre o futuro, pode gerar ansiedade. Mesmo que queiramos recorrer aos inúmeros caminhos de prever o futuro, seja por Nostradamus ou pelo místico, o direito do futuro segue exclusivo nas mãos do divino.
Posso até recorrer a Carlos Drummond: “O último dia do ano não é o último dia do tempo. Outros dias virão [...]”. Nesse sentido, entre correr o risco da premonição cheia de incertezas, resolvemos respeitar a sabedoria da ciência, a experiência dos mais antigos e a maturidade política atual para elaborar as linhas de base para o futuro do Pantanal.
A Lei do Pantanal, aprovada e sancionada no dia 18 de dezembro de 2023 em nosso estado, traçou o destino para os próximos anos. A história saberá reconhecer a importância do ato, afinal, optamos por usar a inteligência, interromper a ganância dos aventureiros e soterrar a ignorância. Optamos por não repetir erros, decidimos não arriscar, optar de maneira irresponsável pela capacidade de resiliência.
Nós fomos capazes de reunir e de unir. Optamos por reconhecer o valor dos ativos protegidos nos últimos 8.000 anos (há estudos que já apontam para ocupação entre 12 mil a 11 mil anos, Astolfo Araújo, MAE-USP), desde os povos originários na construção das cordilheiras até os pantaneiros, homens e mulheres, que optaram por se adaptar, afeiçoar, sobreviver e não transformar. Decidimos não contabilizar passivos e valorar ativos. Não estar constrangidos ante o Brasil e o mundo pela destruição e pela omissão. Optamos por validar a oportunidade do carbono e da biodiversidade, opondo-se à monocultura. Cultivar diversidade.
Protegemos o manejo extensivo ante a safra. Optamos pelo respeito, esse foi o grande segredo. Decidimos pelo coletivo, e não pelo privado. Apostamos no bicho, na certeza da não extinção. Mais do que tudo, decidimos sentir orgulho, orgulho de nós mesmos, orgulho de todos sermos pantaneiros.