Campo Grande precisa do básico. E o básico, por mais surpreendente que pareça, esteve distante da população por um longo período. A ausência de serviços elementares, como ruas em bom estado, atendimento digno na saúde pública e fornecimento regular de medicamentos, foi se acumulando ao longo de anos e se tornou uma marca indesejada da vida cotidiana no município. Quando o essencial falta, o resto parece perder importância.
Essa consciência, felizmente, parece estar de volta. É alentador perceber que o poder público local começa a se mover novamente para atender às demandas mais simples e, ao mesmo tempo, mais urgentes.
Nesta edição, mostramos que a administração municipal prepara um programa para recapear cerca de 50 quilômetros de vias pavimentadas de grande fluxo nos próximos meses.
A notícia não traz promessa de grandes obras faraônicas nem projetos mirabolantes. Traz a decisão de corrigir o que mais incomoda o cidadão comum: buracos e asfalto deteriorado, que prejudicam a mobilidade e aumentam os custos de quem transita pela cidade. Antes tarde do que nunca.
A medida é acertada. E é preciso torcer para que saia do papel, pois o campo-grandense já se frustrou demasiadas vezes com anúncios que não se concretizaram. Melhorar a prestação do serviço público na ponta é, afinal, o que a população mais deseja.
Não é necessário reinventar a cidade, tampouco multiplicar inaugurações com pompa. O que realmente faz diferença são as pequenas entregas, aquelas que resolvem problemas concretos da rotina. Uma rua bem recapeada, uma unidade de saúde com médicos presentes e remédios à disposição, uma escola sem infiltrações e com merenda de qualidade. Nada disso é extraordinário. Mas tudo isso é essencial.
O próximo passo, inadiável, é estender esse esforço de volta ao básico também para a saúde. Melhorar o atendimento nas unidades, reduzir filas, garantir a presença de profissionais e regularizar a oferta de medicamentos não é tarefa impossível, é questão de prioridade e de gestão. Com organização, é perfeitamente possível que o município ofereça um serviço de saúde minimamente adequado, capaz de resgatar a confiança da população e reduzir o sofrimento de quem depende exclusivamente do sistema público.
Não se trata, portanto, de sonhar alto, mas de colocar os pés no chão. O que a cidade precisa agora é romper com quase uma década de deficiência crônica na prestação de serviços básicos. Se Campo Grande conseguir, pouco a pouco, entregar o essencial com qualidade, a perspectiva da população mudará.
É um efeito psicológico e prático: o cidadão que vê a rua consertada, que encontra o remédio que precisa na farmácia da unidade de saúde, que é atendido com respeito por um servidor público passa a acreditar que o município pode, sim, cuidar dele.
Esse movimento é mais transformador do que qualquer obra monumental.
Uma cidade que se reconcilia com o básico prepara terreno fértil para avanços maiores. Não se constrói um futuro moderno e próspero sem cuidar antes daquilo que é elementar. Campo Grande precisa resgatar essa lógica, e o anúncio do recapeamento de 50 km de vias pode ser o primeiro passo de um caminho mais longo, mas absolutamente necessário.