Política

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Lógica invertida

Lógica invertida

Redação

01/02/2010 - 06h56
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Dados da Polícia Federa l i nd icam que entre 2003 e 2006 ocorreu superfaturamento nas obras de dez aeroportos do País, incluindo o de Corumbá. No total, o esquema fraudou R$ 991,8 milhões dos cofres públicos, fortuna suficiente para construir 34 mil casas, onde poderiam ser abrigadas 113 mil pessoas, de acordo com o relatório da PF. Ou seja, é dinheiro que não acaba mais. Se os servidores públicos e empreiteiros realmente desviaram este dinheiro todo caberá à Justiça dizer. Porém, é de se imaginar que a Polícia Federal não seria irresponsável ao ponto de apontar tamanho esquema de corrupção sem que tivesse evidências claras. E, para confirmar a tese de que onde há fumaça há fogo, vale lembrar que não é de hoje que os superfaturamentos fazem parte da relação entre determinadas empreiteiras e homens públicos. Esta tradição, contudo, de nada adianta para que os responsáveis pelas empreiteiras e principalmente os administradores públicos sejam punidos ou que algum dinheiro seja devolvido. Pelo contrário, ficam cada vez mais poderosos. Empresas como Odebrecht, OAS, Constran, Queiroz Galvão, Mendes Júnior, Gautama, Camargo Corrêa e Financial (só para citar algumas das 18 apontadas pela Polícia Federal) já se envolveram numa infinidade de escândalos, mas continuam executando os principais projetos pelo País afora. E, embora um suposto caso de fraude não seja por si só prova de que nas demais obras também há irregularidades, não se pode negar que, quando alguém cometeu um deslize voluntário de caráter ou de honestidade, sua credibilidade literalmente foi enterrada e a tendência natural é que, a partir daí, fosse banido. No caso da Financial, que realizou obras em Corumbá e está entre as citadas pela PF, é quase incontável o número de casos em que foi acusada de negócios suspeitos com o poder público. Mas é cada dia mais abrangente seu envolvimento com as administrações locais, tanto na Capital quanto no interior do Estado. Com as empresas de abrangência nacional, a situação é idêntica. Os administradores destas empresas podem até alegar que são literalmente obrigadas a distribuir propinas caso queiram vencer alguma licitação. Nisto certamente têm razão. Contudo, se mantêm o silêncio e não denunciam os políticos corruptos é porque levam vantagem nestes esquemas. Não são raros os casos de empresários que entraram no setor da construção, mas que se retiraram porque não suportaram as manipulações ou que se contentam em pegar obras secundárias, as quais pouco interessam aos barões. Ao realizarem obras públicas, as empreiteiras transformam-se em "empregados" do contribuinte, já que é ele quem paga a conta, superfaturada ou não. Em sã consciência, qual o cidadão que contrataria um funcionário que já deu provas de que não é confiável, que desvia dinheiro do patrão? No meio político, porém, a lógica parece ser exatamente a inversa.

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