Política

Cenas de Campo Grande

Uma Aula Magna descontraída

Uma Aula Magna descontraída

Redação

01/04/2010 - 20h29
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Em 19 de março, sexta-feira, participei de uma aula magna da Universidade Estadual de MS. Minha primeira observação foi que as pompas e circunstâncias de antes tinham cedido lugar a surpreendente clima de descontração. Numa louvável quebra de padrões, os discursos expositivos tinham sido substituídos por dinâmico painel de debates em que os temas abordados ganharam relevo na visão dos que ali estavam para falar de mudanças de comportamento, liberdade, escolhas e outras conquistas importantes no grande reino das possibilidades que é o ensino superior.

O evento, que fazia parte da abertura do ano escolar da Universidade Estadual aconteceu na Câmara Municipal de Campo Grande. Observei de início a presença significativa de acadêmicos que, depois de um dia de trabalho, ali se encontravam, atraídos pelo desejo de ser a parte viva das discussões em torno de problemas que lhes tocavam o cerne do futuro.

Mariluce Bittar, doutora em educação e historiadora, valeu-se dos recursos audiovisuais do data show para eficiente comunicação com a plateia, ao percorrer, com rara competência, os caminhos do ensino superior.

Quando chegou minha vez, não foi difícil discorrer sobre as mudanças produzidas no Estado, e em sua capital Campo Grande, com a chegada das universidades.

Como participante desse processo transformador, bastou-me recorrer à memória, mágico sensor, que retém as lembranças, para que elas escorressem pelas frestas do tempo na recomposição do grande painel de imagens construído por homens e mulheres de muita fibra, determinação e ousadia, que plantaram as sementes do ensino superior em nossa terra.

Como Baudelaire, me sentia invadida por mais lembranças do que se tivesse mil anos. Lembrei as lutas dos pioneiros salesianos padre Felix Zavattaro, Ângelo Venturelli, que criaram em 1961 a Faculdade Dom Aquino de Filosofia, Ciências e Letras, celeiro de brilhantes inteligências, como Eliza Cesco, Mariza Serrano, Maria Eliza Hindo, Sylvia Odinei Cesco, Morelli Teixeira, Cida Bueno, Gessy Militão, que lideraram festivais de música e de teatro, redigiram artigos para revistas e jornais, criaram programas de rádio e de TV numa efervescência nunca vista no Estado. Eram as sementes do ensino superior brotando com a força dos movimentos, que vinham destruir as raízes da mediocridade.

Recordei os anos sessenta em que Hércules Maymone, Yule Baís, Antônio José Paniago, Ruth Pinheiro da Silva, Maria Eliza Trouy Galles, Mário Cerqueira Caldas Waldeck Maia e Kalil Rahe fundaram a Faculdade de Farmácia e Odontologia, embrião do ensino público superior em nosso Estado. Destaquei a figura de João Pereira da Rosa primeiro diretor da Faculdade Estadual de Medicina. Principalmente valorizei a ousadia e a paciência dos que assumiram os desejos da comunidade, que via na criação da Universidade a solução de problemas dos que não podiam continuar os estudos em decorrência da falta de instituições de ensino superior necessárias ao desenvolvimento de um Estado, que precisava crescer em direção ao verdadeiro sentido de sua grandeza social.

O último a falar foi o reitor Gilberto José de Arruda que destacou de forma brilhante a contribuição da UEMS no cenário estadual.

Os debates aconteceram de forma tão dinâmica que até às 22 horas as perguntas se multiplicavam. Um dos alunos comentou a semelhança entre a época do ensino à luz de velas das aulas do Curso de Odontologia e Farmácia no Colégio Estadual Campo-Grandense e as de hoje tão repletas de dificuldades. Como superá-las? Ao que o coordenador dos debates, Daniel Abrão, respondeu com um verso de Drummond:

"Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança".

Foi uma noite de memoráveis lembranças que deixou em nossas consciências a certeza de que precisamos continuar lutando, porque as mudanças por que todos sonhamos só se resolvem com a educação, que precisa ser incrementada em todos os seus níveis e graus.

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