Personagens do longo confinamento do ex-presidente sul-mato-grossense Jânio Quadros em Corumbá, em 1968, por ordem do governo militar, retornaram ao hotel onde o líder populista ficou 120 dias “isolado”, revivendo, 42 anos depois, um dos conturbados episódios da história política do Brasil. Por criticar duramente o regime de exceção, Jânio foi submetido ao exílio no duplex 606, do Hotel Santa Mônica, no centro de Corumbá.
Secretário particular do ex-presidente desde seu primeiro mandato de governador de São Paulo, o ex-vereador em Campo Grande Victor Eugênio, 75 anos, não conhecia a galeria de fotos e documentos que o hotel criou em homenagem ao ilustre hóspede, baseada no livro “O diário de um confinado”, do jornalista Mauro Ribeiro. A visita ao acervo reacendeu uma grande polêmica da época e provocou fortes emoções.
“Por aqui (Corumbá) passaram pelo menos 70% do PIB brasileiro naquele ano”, observou o corumbaense Paulo Gustavo Lacerda, 66, lembrando a rotatividade dos grandes empresários do País em visita à cidade solidarizando-se com Jânio. Lacerda integrou um comitê de recepção ao ex-presidente e cedeu sua casa mobiliada, a 200 metros do hotel, onde funcionou uma espécie de “quartel general” do confinado.
Confraria
Lacerda se reencontrou com velhos amigos ao retornar ao Santa Mônica nesta semana. Victor Eugênio foi conhecer a galeria acompanhado do brigadeiro Agenor Figueiredo, que comandava o avião presidencial de Jânio Quadros, na década de 50, e de Manuel Correia Ribeiro, 80, um dos oito agentes federais designados para fazer a segurança do ex-presidente. “Fui testemunha de tudo, escutei muitas histórias”, disse ele.
Não se sabe por que o governo escolheu Corumbá para afastar Jânio Quadros das manifestações políticas, depois de descartar Fernando de Noronha e Cáceres (MT). Mas, de fato, o local determinado proporcionou férias ao ex-presidente. Ele reencontrou amigos, participava de grandes recepções e engordou cinco quilos em 60 dias. “A continuar engordando vou desmoralizar o instituto do confinamento”, dizia.
Na memória
Na chegada ao hotel, no dia 30 de junho de 1968, o esperava o amigo brigadeiro, que se casara com uma corumbaense, Joanita. Dentre tantas coincidências, Figueiredo, já na reserva, visitava a cidade naquele dia. “Quando ele me viu foi um alento. Apresentei-lhe várias famílias, o que amenizou o impacto do confinamento”, comenta o ex-militar, hoje com 89 anos, filho do ex-governador de Mato Grosso Arnaldo Estevão de Figueiredo.
“A permanência do Jânio em Corumbá é um fato histórico e não cabe a nós julgar. O Brasil sobreviveu àqueles tempos e continua sobrevivendo a tantos solavancos”, diz o comedido Figueiredo, cujo sogro, João Leite de Barros, era adversário político do pai, um da UDN e o outro, PSD.
O resgate do fato político sensibilizou o secretário particular e compadre de Jânio Quadros. “Jamais vou esquecer o que vivemos aqui”, disse Victor Eugênio. O dono do Hotel Santa Mônica, Luis Antônio Martins, criou a galeria para reviver uma história ainda pouco conhecida. “Corumbá não pode perder esse vínculo com o passado. Outros grandes homens já moraram aqui, como o presidente Getulio Vargas”, cita. Jânio Quadros morreu em 1992, aos 75 anos.