O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (17) que é preciso acabar com partidos "laranjas, de aluguel" e, em sua mais dura crítica ao financiamento privado de campanha, disse que a iniciativa deveria ser "crime inafiançável".
Para o petista, é preciso realizar uma ampla reforma política, capaz de colocar fim às siglas que "utilizam seu tempo [na propaganda eleitoral na TV] para fazer negócio".
Ao defender o voto em lista, ele disse que "não pode ter deputado avulso" e que as legendas precisam definir "quem são os melhores" para disputar as eleições .
A fala de Lula ocorre mais de duas semanas depois de a presidente Dilma Rousseff, sua afilhada política, realizar a troca de dois ministros, atendendo demandas do PR, para evitar perder mais tempo de TV no horário eleitoral.
A movimentação foi intensificada depois da traição do PTB, que deixou a base governista para apoiar o presidenciável tucano Aécio Neves. Dilma ainda cedeu ao PP cargos de direção em estatais e assegurou que o PSD terá seu espaço ampliado em eventual segundo mandato.
Com as negociações, a presidente deve somar quase três vezes o tempo de propaganda de Aécio Neves, hoje seu principal concorrente na disputa.
Segundo os cálculos preliminares da Justiça Eleitoral, a candidata do PT à reeleição deverá ter 11 minutos e 48 segundos em cada bloco de 25 minutos de propaganda. Já Aécio teria 4 minutos e 31 segundos.
"Vamos aproveitar a campanha para pegar assinaturas para a gente dar entrada num projeto de lei que possa mudar substancialmente a política brasileira, ter partidos mais sérios, acabar com partidos laranjas, acabar com partido de aluguel, acabar com os partidos que utilizam seus tempos para fazer negócio", disse Lula em mais um vídeo da serie na qual fala de política para a juventude.
O ex-presidente aproveitou para fazer uma defesa enfática de duas bandeiras históricas do PT para alterar o sistema político brasileiro: o voto em lista, quando o partido define os candidatos, e o financiamento público das candidaturas.
"Teremos que consolidar os partidos, por isso, é preciso ter voto na lista. É o partido que tem que indicar quem são os melhores nomes e responsabilizar as pessoas. Um deputado não pode ser um deputado avulso, tem que ser um deputado do partido. Se ele trair o programa do partido, tem que ser expulso. Tem que sair porque o mandato pertence ao partido", disse.
Lula subiu o tom ao falar das doações privadas para as campanhas. Atualmente, construtoras, empresas de engenharia e incorporadoras são as principais financiadoras de candidaturas.
"O financiamento tem que ser público. É a forma mais honesta de financiar uma campanha para não permitir que os empresários tenham uma influência na eleição das pessoas", afirmou Lula.
"Eu sou tão sectário nesse aspecto que eu acho que o financiamento privado deveria ser crime inafiançável. Não pode ter dinheiro privado. O voto vale um real, dois reais ? Que os partidos recebam o que lhe é de direito, que os partidos sejam fiscalizados e que esse dinheiro possa ser de forma transparente utilizado para que cada partido possa eleger aqueles que o partido coloque na lista e ache que seja mais importante eleger. Se não tiver reforma política, tudo será mais difícil de acontecer em nosso pais", completou.
Lula voltou a propor a convocação de uma Constituinte Exclusiva para a reforma política. A ideia foi lançada por Dilma em meio aos protestos que sacudiram as ruas em junho do ano passado, mas acabou rechaçada por partidos governistas e oposicionistas, além de especialistas e ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).
"É por isso que nós queremos que seja convocada uma constituinte exclusiva, com pessoas que sejam eleitas só para fazer reforma política. Na minha ideia, essas pessoas depois não poderão ser candidatos, que sejam eleitos só para fazer a reforma."
Para o ex-presidente, a estruturação dos partidos precisa mudar porque há um desgaste dos partidos e da política na população.
"Não é apenas a juventude que está desencantada com a política. Eu acho que tem uma sociedade inteira desencantada com a política. Outro dia , em uma entrevista com a imprensa estrangeira, eu disse que a política está apodrecida aqui no Brasil e em várias partes do mundo porque há uma rejeição, negação da política", avaliou o petista.