Ele já foi presidente da empresa da família e da Famasul, acumulou cargos no início do governo Reinaldo Azambuja e, agora, está à frente da Secretaria de Governo e de Gestão Estratégica. Aos 45 anos, Eduardo Corrêa Riedel busca, junto a sua equipe, focar primeiramente no planejamento da estrutura de gastos das secretarias e no relacionamento delas com a Governadoria. Nesta entrevista, ele fala desta relação, sobre como a crise nacional está afetando Mato Grosso do Sul e sobre os cortes necessários para enfrentá-la, bem como investimentos, sim, porque são necessários. Além disso, aborda os principais problemas enfrentados pelo novo governo, nestes primeiros três meses de gestão.
CORREIO PERGUNTA - O senhor chegou a acumular cargos e, agora, é secretário de Governo e de Gestão Estratégica. Poderia explicar ao leitor quais são, exatamente, as atribuições destes cargos? O que se diferencia da atribuição do titular da Casa Civil?
EDUARDO RIEDEL – A Casa Civil tem um objeto de trabalho direcionado para o político, para os agentes externos ao governo. Quer dizer, a relação com a Assembleia Legislativa, com a bancada federal, com os prefeitos, com a Governadoria, é feita pela Casa Civil. A Secretaria de Governo e Gestão Estratégica trouxe para sua área de atuação, primeiro, o planejamento, que passa a ter um papel fundamental no governo Reinaldo Azambuja. Quer dizer, você tem uma estrutura de gastos sendo analisada e coordenada junto às áreas finalísticas, para se definir um orçamento para estas estruturas, que planeja o governo e, a partir de então, definem-se e realizam-se os gastos de cada secretaria. E, para isso, são monitorados os indicadores quantitativos e qualitativos da entrega de cada uma das secretarias. A Secretaria de Governo e Gestão Estratégica está olhando para dentro do governo, a interação da Governadoria com as secretarias, no sentido de seu funcionamento, de suas entregas, da eficiência que tem sido aplicada para cada secretaria. É fazer valer o que foi planejado no orçamento para as secretarias.
O senhor foi presidente da Famasul e deve ter um olhar diferenciado para os problemas rurais, tanto os que atingem os ruralistas quanto os trabalhadores e indígenas. O que está sendo elaborado para esse setor?
A Secretaria de Produção e Agricultura Familiar é quem vai tratar, de maneira muito focada, o desenvolvimento agropecuário. E aí é preciso dividir também o que é um projeto de indução para o desenvolvimento agropecuário, da melhoria de eficiência, da melhoria de produtividade de nossos produtores, do que é quase que uma demanda social. Quando falamos nas comunidades indígenas e quando falamos em propriedades ditas de agricultura familiar, nosso grande desafio é fazer com que estas propriedades pequenas, de menor acesso a recursos, tenham principalmente acesso à tecnologia e incorporem esta tecnologia em seu sistema de produção. E não vamos falar de tecnologia da última máquina, a de última geração. Não. São sistemas simples de inclusão, básicos, o pacote de tecnologia básica, que, implantado numa propriedade desta natureza, muda completamente a realidade de renda dela. Eu penso que este é o maior desafio desta secretaria em especial.
E no que se refere aos ruralistas?
No que se refere à produção propriamente dita, a grande demanda para os produtores que já estão com um nível de tecnologia bom, já têm bom índice de produtividade e estão no mercado, é a infraestrutura. O que o Estado pode oferecer para esta categoria econômica é competitividade. É não ver o seu custo subir muito por meio de uma infraestrutura mais eficiente.
Há planos para isso no governo?
Sim, há planos. O governo está remodelando a estrutura de manutenção das estradas. O secretário Marcelo [Miglioli], que é da Seinfra, está trabalhando num novo modelo de prestação de serviços, e aí vai alocar o recurso que era para esta manutenção para este novo modelo. E ele espera que o resultado melhore bastante em termos de qualidade de manutenção das estradas estaduais.
A crise econômica nacional afeta diretamente os estados. Como a Secretaria de Governo pretende atuar, junto ao governo federal, para continuar viabilizando economicamente os projetos estaduais?
O governo fez uma opção muito clara, desde muito antes da eleição. O governador Reinaldo e equipe, na campanha e depois de eleitos, fizeram um compromisso muito forte com a Saúde, esta é uma prioridade do governo. E, ao ser uma prioridade, construir uma relação com a bancada federal direcionada para a Saúde. E o governo se comprometeu, para cada real que fosse colocado por emendas da bancada federal no Estado em Saúde, a colocar outro real. Assim está sendo feito. Então, se não me engano, são R$ 83 milhões de emendas que estão sendo direcionadas para o Estado, valor que ele vai dobrar e fará um total de R$ 166 milhões investidos em Saúde.
Tivemos queda significativa na arrecadação estadual (R$ 129 milhões em dois meses). O que está sendo feito para driblar as dificuldades? O que motivou essa queda?
Principalmente a queda de arrecadação direta, fruto desta crise econômica que estamos vivendo. O ano começou extremamente assustador para a população como um todo, e é natural que todo mundo iniba os seus investimentos, esta é uma reação natural do ser humano. E o que precisa ser feito é retração, você precisa economizar R$ 40 bilhões, ter superavit primário de R$ 66 bilhões, e isso afeta repasse para os estados, afeta o comportamento da sociedade. Mato Grosso do Sul não é diferente de nenhum estado, porque sentiu o golpe. Para isso, temos que ser muito duros em relação a algumas atitudes. Mas, mesmo assim, nós mantivemos, no que se refere à renegociação do salário dos professores, aplicamos 13.01%, que é o piso nacional – muitos estados nem sequer o fizeram, porque não tinham condições. Nós estamos fazendo um esforço enorme, em algumas áreas de custeio, para poder absorver esta crise do ponto de vista de receita e dar prioridade para as pessoas.
Quais as primeiras áreas que poderão sofrer cortes diante desse resultado?
Algumas áreas de custeio. O governo sempre tem uma participação pesada de seu custeio em pessoas, e isso é em praticamente todos os governos. O governo não presta serviço à sociedade, as pessoas é que fazem isso. Então, você tem um comprometimento expressivo do nosso orçamento com as pessoas. E nós tivemos alguns aumentos, de dezembro para janeiro, bastante expressivos em algumas categorias, os quais foram deixados pelo governo anterior e tivemos que absorver. Não tem como você retornar, voltar, senão será um eterno retrocesso. Como demos, ainda, o aumento e a expectativa da categoria dos profissionais da habitação, também aplicamos o que era o piso. Vamos diminuindo em algumas áreas de custeio. Infelizmente, temos que diminuir algumas áreas de investimento. O Aquário está aí, e temos que acabar. Seria muita irresponsabilidade não concluir uma obra do volume e do valor que foi feito. Agora, nós vamos cortar algumas áreas de custeio – viagens, passagens...Veja que fizemos uma estrutura administrativa enxuta, são 13 secretarias. E isso diminui significativamente os gastos. Enfim... buscamos cortes em alguns contratos específicos, e é a maneira que encontramos de poder diminuir esta queda de receita.
Haverá necessidade de protelar promessas de campanha?
Eu acredito que não. E é melhor chamar de compromissos de campanha. Eles foram feitos com os pés no chão, foram colocados de maneira muito consciente. Vamos resgatar alguns: a Saúde já começou. O esforço que nós fizemos para colocar a caravana na estrada foi muito grande, e o resultado impressiona, foram mais de 7 mil atendimentos, 400 operações de olhos (cataratas, glaucoma e tudo mais); são números muito fortes. Cirurgias eletivas realizadas e ginecológicas, traumatologia, enfim, todas elas. E está todo mundo trabalhando muito forte já para ir a Ponta Porã, agora em abril. Este é um compromisso de campanha que, no primeiro dia de governo, começou a ser pensado e é muito difícil de ser realizado.
Então, podemos dizer que na Saúde, Educação e Segurança não se mexe?
Mexe-se, mas para melhor. Na Segurança, estamos chamando o pessoal concursado para ingressar no quadro, aumento real de efetivo, buscamos a melhoria de equipamentos específicos da segurança que estão sendo pensados para poder atender a população. Na Educação, estamos terminando o levantamento de demanda de infraestrutura de todas as nossas mais de 300 escolas. Então, todas as promessas de campanha, nestas três áreas, principalmente, estão tendo um olhar muito atento.
Em maio, o governo terá, ainda, o desafio de conceder reajuste salarial aos servidores. Qual será a estratégia diante da crise? O que está sendo negociado?
Nós ainda não começamos uma negociação direta com os servidores, mas já instalamos um fórum de discussão permanente com as categorias, que é o Fórum Dialoga. Já tivemos uma primeira reunião, em que submetemos a proposta de decreto aos mais de 47 sindicatos de servidores estaduais.
São praticamente três meses de gestão estadual. O senhor poderia elencar quais os principais problemas enfrentados pelo governo até agora?
São muitos. Um princípio de gestão no qual se muda totalmente a estrutura e aplica-se uma nova maneira de governar, de agir perante a sociedade, diante da própria estrutura da máquina pública, traz uma série de reordenamentos e de processos. Uma série de mudanças de estruturas, sejam internas, sejam para fora. Eu penso que um primeiro grande desafio é esta reorganização. E isso você tem que fazer sem parar a máquina de atendimento, que é uma máquina grande, pesada e que precisa se tornar mais eficiente, mais objetiva, menos burocrática, tudo isso sem parar. Talvez a maior dificuldade, que não é só minha, não, mas de todos os secretários, seja reorganizar a sua estrutura ao mesmo tempo em que não pare o seu serviço e comece a imprimir o seu planejamento, as suas ações. Este é o maior desafio de início.
Fora toda esta reordenação que tem que ser feita, com o que o senhor se deparou no início, do legado anterior, que o deixou assustado?
Um pouco, a falta de organização dos processos como um todo. Há pessoas de muito valor dentro do governo, realmente há grupos que você consegue extrair muito, há muita produtividade das pessoas. Mas eu me assustei um pouco, quando me deparei com a falta de organização de processos. É uma coisa difícil de diagnosticar, não quero aqui fazer referência a ninguém.
O senhor diria que teve de voltar à estaca zero em muita coisa?
Não. Não chega a tanto. E nem dá para voltar à estaca zero, porque tudo é muito grande para voltar. Mas, sem dúvida alguma, temos que redirecionar uma série de processos, procedimentos e ações para se buscar o resultado desejado. Isso assusta um pouco, num primeiro momento. Agora, eu tenho muita consciência de que vai dar certo, em termos de implementação de uma organização mais eficiente, não tenho dúvidas disso. Pelo que percebi do grupo, de conteúdo, intenção das pessoas, é uma energia muito boa e com foco, direcionamento. O grupo está focado em dar resultados, e isso é muito positivo.