Política

ELEIÇÕES 2018

Antes de ser nome da direita, Daciolo ia de Marx a PSTU

Antes de ser nome da direita, Daciolo ia de Marx a PSTU

Redação

25/08/2018 - 23h00
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"Eu tô aqui na primeira oportunidade pra mostrar que eu sou o Cabo Daciolo, servo do Deus vivo, e digo ao meu companheiro Jair Bolsonaro: você não é o único, não, irmão, eu tô aqui."

Assim o Brasil conheceu este presidenciável que ainda não aparecia em nenhuma pesquisa (agora tem 1% no Datafolha), mas que ganhou o direito de participar do debate da Band, com peixes-grandes como Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT).

Este primeiro embate entre rivais na corrida pôs na berlinda o candidato que popularizou uma teoria da conspiração na internet: claro que o representante do nanico Patriota, com sua oratória à extrema-direita, só entrou no páreo para fazer com que Bolsonaro parecesse um moderado.

Pois o cabo é cria da esquerda: iniciou sua carreira no PSOL, assunto até hoje indigesto para uma legenda famosa por defender causas das quais Daciolo quer distância, como o direito ao aborto.

O namoro correu às mil maravilhas. Benevenuto Daciolo Fonseca dos Santos, o Cabo Daciolo, 42, "tinha uma inegável liderança num movimento extremamente popular", lembra o deputado Chico Alencar sobre aquele que viria a ser seu colega no PSOL.

E tem algo mais a cara da esquerda do que um líder grevista -e ainda por cima um tipo jovem que virou outdoor para bombeiros do Rio que exigiam melhores condições de trabalho? Chegou a ser preso, em 2012, e começou a ser assediado por partidos.

Um deles era o PSTU, aquele do bordão "contra burguês, vote 16". Esposa e mãe dos três filhos do cabo, Cristiane Daciolo, 45, diz à Folha que "eles apoiaram muito [a greve]. Inclusive somos amigos do Cyro [Garcia, fundador do PSTU]".

O ex-bombeiro se aproximou do PSOL por intermédio de Janira Rocha, à época deputada estadual da sigla. Parte do diretório fluminense não era muito fã dessa filiação, conta Alencar. "Tinham algumas restrições, mas a maioria da executiva nacional achava que não tinha problema, que era certo elitismo da nossa parte exigir uma formação política esmerada [do cabo]."

Mas ninguém suspeitava que o grevista fosse se revelar o político que, uma vez eleito, promoveria campanhas como "As Sete Voltas no Congresso para Expulsar Satanás". "Não nos pareceu em momento algum ser um fanático que colocava sua religiosidade dogmática como elemento central."

Suas credenciais esquerdistas pareciam impecáveis. Em 2013, posou ao lado de Cyro Garcia segurando uma biografia de Karl Marx. Pedro Rios Leão, 33, também tem um retrato com o cabo. Ele tentava chamar atenção para Pinheirinho, uma ocupação em São Paulo cuja violenta reintegração de posse se tornou um imbróglio policial em 2012. Pedro decidiu se acorrentar num canteiro em frente à sede de jornalismo da Globo no Rio.

"Daciolo apareceu liderando uma carreata de bombeiros e PMs para me apoiar", diz. Daí a foto com aquele que se filiaria ao partido que hoje tem o líder do MTST, Guilherme Boulos, como presidenciável.

Durou pouco a lua de mel entre PSOL e o cabo, que se elegeu em 2014 com 49,8 mil votos, na campanha mais barata entre os 46 deputados eleitos pelo Rio. Já na diplomação, o primeiro constrangimento, rememora Alencar. "Foi ao encontro do Bolsonaro e tirou foto todo sorridente."

Não foi surpresa alguma quando Daciolo, dias atrás, subiu no monte das Oliveiras, no Rio, para jejuar, orar, atacar a sociedade secreta Illuminati e dizer que tentarão matá-lo.

"Numa reunião, ele falou que tinha subido o monte e tido uma iluminação: sofreríamos uma tremenda queda que nos converteria", diz o deputado, que já é protestante.

A gota d'água veio cinco meses após sua posse, quando Daciolo apresentou proposta para alterar o trecho da Constituição que diz que "todo poder emana do povo". Queria substituir povo por Deus. O PSOL viu ali uma afronta ao Estado laico e o expulsou.

Daciolo não tem uma denominação específica, conta a esposa. A conversão aconteceu 14 anos atrás: nenhum exame identificava as fortes dores de barriga que sentia. "Ele estava com disenteria há meses, emagrecendo." A fé evangélica, para Cristiane, o curou.

Alencar recorre a uma figura do direito para explicar o divórcio com Cabo Daciolo: "Erro essencial sobre a pessoa", quando um cônjuge pode pedir anulação do casamento se apontar uma divergência intransponível com o parceiro.

"Achou que era uma maravilha, uma beleza, depois começou a coabitar e viu que não era bem assim", afirma sobre a união sem final feliz.

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