Política

NOVO GOVERNO

Bolsonaro ameaça cortar relações com Cuba

Bolsonaro ameaça cortar relações com Cuba

Redação

02/11/2018 - 22h30
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O presidente eleito Jair Bolsonaro disse que "não faz sentido manter relações diplomáticas com Cuba" porque a ilha desrespeitou os direitos humanos. Em entrevista publicada nesta sexta-feira pelo jornal "Correio Braziliense", Bolsonaro criticou o programa "Mais Médicos", no qual 11.420 médicos cubanos trabalham em regiões pobres ou remotas do Brasil.

Segundo Bolsonaro, Cuba só repassa aos médicos 75% do valor de seus salários  e o governo da ilha ainda não autoriza os profissionais a trazerem seus filhos para o Brasil.

— Isso é uma tortura para uma mãe — disse Bolsonaro. — Podemos manter relações diplomáticas com um país que trata seu povo dessa maneira? — questionou.

Ele disse ainda que o programa, iniciado pela ex-presidente Dilma Rousseff para prestar atenção médica em áreas descobertas por médicos brasileiros, poderia continuar, mas os médicos cubanos teriam que obter seu salário integral e pode trazer consigo seus filhos.

Bolsonaro, eleito na semana passada, toma posse em 1º de janeiro e já sinaliza grande mudança na política externa brasileira. Buscará relações mais próximas com os Estados Unidos — ele confirmou, na última quinta-feira, que planeja seguir a liderança do presidente americano, Donald Trump, e transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

A afirmação do presidente eleito vem dois dias depois de Cuba ter manifestado que pretende manter relações com o Brasil. Na campanha eleitorial, Bolsonaro afirmou repetidas vezes que distanciaria o país de governos de esquerda.

Nesta quarta-feira , o ministro do Comércio Exterior de Cuba, Rodrigo Malmierca, afirmou que tinha intenção de manter o relacionamento comercial com o Brasil, além de dar continuidade ao "Mais Médicos".

— Não temos problemas em nos relacionar com aqueles que pensam de forma diferente de nós. Isso seria intolerante — declarou a repórteres Malmierca, também titular da pasta de Investimento Estrangeiro.

O Brasil é um importante fornecedor de alimentos para a ilha e contrata profissionais da saúde cubanos para o programa "Mais Médicos" desde 2011. O programa representa para Cuba US$ 11 bilhões.

Para o professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, Tomaz Paolielo, a medida de "cortar relações diplomáticas" é extrema.

— No momento é apenas um anúncio, e pode ser apenas bravata — diz o professor. — Em geral esse tipo de medida está relacionada a algum acontecimento grave entre os dois países. Como não é o caso no momento, o anúncio demonstra uma ideia de política externa ideologizada, ao escolher Relações Internacionais de acordo com regimes e governos, e agressiva, ao optar por ruptura no lugar de diálogo e concertação — acrescentou Paolielo.

Na avaliação dele, "um rompimento desse tipo sinaliza uma enorme mudança do tradicional pragmatismo que guia a política externa brasileira".

— A relação com Cuba é ainda muito fetichizada no Brasil, especialmente por setores da direita. O Brasil teve uma posição histórica no pós-revolução na tentativa de engajar o regime cubano, confrontando a posição dos EUA, mas rompeu as relações após o golpe de 1964, demonstrando marcadamente a posição anticomunista do regime militar. Mesmo no auge do pragmatismo do governo Geisel, Cuba seguiu tabu para o regime militar, e os países só reataram relações no governo Sarney. Desde então o Brasil tem mantido relações boas com o país, explorando possibilidades de negócios e parcerias — acrescentou o professor.

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