Política

CÂMARA MUNICIPAL

Independentes se alinham com Trad, que governa sem oposição

Camila Jara e Tiago Vargas, eleitos com discursos de independência, têm votado sempre com o prefeito

Ana Karla Flores

01/05/2021 - 08h31

A oposição ao prefeito Marcos Trad (PSD) nesta nova gestão é quase inexistente na Câmara Municipal de Campo Grande. 

Desde o início de sua primeira gestão, Marcos Trad sempre teve a maioria da Câmara ao seu lado, porém, sofria pressão de opositores convictos, como Vinícius Siqueira (Pros) e André Salineiro (Avante), que preferiram concorrer ao pleito de 2022 para o Executivo municipal.  

Porém, nesta legislatura a situação ficou ainda mais confortável para Marcos Trad, já que hoje seu partido tem a maior bancada da Casa de Leis. Um dos candidatos que parecia ter uma postura mais antagonista ao prefeito, apesar de ser da mesma sigla, é o vereador Tiago Vargas, eleito com recorde de votos.  

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O jovem parlamentar sempre teve uma postura antissistema, pois entrou em um embate contra o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) após ser demitido da Polícia Civil. Segundo Vargas, o fato ocorreu após ele ter dirigido críticas à gestão de Azambuja e sua administração. 

O vereador reconheceu que ainda é um político que se coloca antissistema. No entanto, pondera que foi eleito pelo partido do prefeito e, apesar disso, tem feito críticas à atual gestão, mas de forma construtiva e pontual.  

“Esse termo oposição é muito forte. Como pertencente ao partido de Trad, eu não quero fazer apenas indicações dos problemas, quero solucioná-los. É muito fácil apontar erros que ocorrem na cidade, mas o difícil é mostrar as soluções". 

"Eu não concordo com o termo oposição, mas, sim, aposto em apontamentos construtivos. Por exemplo, tenho cobrado ampliação de veículos para o transporte público, para que possam prestar um serviço qualificado aos nossos munícipes”, assegurou.  

E complementou dizendo que “outro exemplo é sobre o furto do pé da estátua do poeta Manoel de Barros. Em vez de reclamar sobre o fato, pois ele onera os cofres públicos, eu prontamente solicitei uma câmera de monitoramento no local. Assim, com vigilância ela ficará mais segura”.

NOVA GERAÇÃO

Outra figura jovem do parlamento municipal e que trouxe um discurso de renovação é a caçula entre os vereadores Camila Jara (PT). No entanto, nos últimos dias tem adotado um tom mais pragmático em relação à gestão municipal. 

Essa queda no tom se deve muito à articulação que ela está fazendo com o prefeito para viabilizar o seu projeto Renda Cidadã, o qual, por onerar os cofres municipais, só tem base jurídica se partir do Executivo.  

Ou seja, se a medida dela fosse aprovada pela Câmara, seria vetada por Marcos Trad, pois ele correria o risco de ser enquadrado na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) caso a sancionasse.  

A vereadora defende o seu tom, considerado mais pragmático, e destaca que, para ela, fazer oposição a um governo não significa ser inimigo dele. Ainda conforme Jara, quando isso ocorre, qualquer possibilidade de diálogo deixa de existir. “O maior prejudicado é a população”, analisa.  

“Eu e o prefeito, por exemplo, temos as nossas diferenças ideológicas e partidárias, mas, quando o foco é a vida da nossa população, como agora neste momento de pandemia, não existe diferença política que seja maior do que os interesses do povo". 

"O meu projeto de Renda Básica, que a reportagem citou, é um exemplo disso, pois eu e o Marcos Trad não somos do mesmo partido, mas conseguimos olhar na mesma direção quando entendemos que tem gente com fome em nossa capital e principalmente neste período de pandemia”, analisou.  

Além disso, Jara rebateu as críticas apontando alguns números: “O desemprego atinge mais de 14% da população brasileira, sendo 56 mil desempregados somente em Campo Grande, e a fome já atormenta 27 milhões de brasileiros, aqui em Campo Grande já são 32 mil famílias sem nenhum auxílio emergencial”.

 

Oposição mais concreta

O mais enfático nas críticas ao governo Trad é o vereador e sindicalista Marcos Tabosa (PDT). Como presidente do Sindicato dos Funcionários e Servidores Públicos Municipais de Campo Grande (Sisem), no primeiro mandato do atual prefeito, o sindicalista foi um crítico ferrenho da atual gestão, essa postura não mudou.

Segundo ele, o “Executivo tem duas escolhas, se quer paz, terá paz, mas se optar pela guerra terá guerra”.  

“Como já disse em outras oportunidades, estou pronto para qualquer um dos dois cenários que se desenhar. Também acho que a palavra oposição é muito forte, mas estou tentando atuar na construção de pontes, entre os interesses do funcionalismo público e a população geral com o governo municipal".

"Porém, essa articulação já começou e está nas mãos do chefe do Executivo Municipal”, alertou.

Outro vereador que se coloca de forma mais aguerrida em uma eventual “oposição” à gestão municipal é o Professor André Luis (Rede). Ele, juntamente com Marcos Tabosa e Dr. Victor Rocha (PP), tentou montar um bloco opositor para viabilizar cargos em comissões importantes, como a Comissão Permanente de Legislação, Justiça e Redação Final (CCJR).

Porém, após um acordo com o presidente da Câmara, Carlos Augusto Borges, o Carlão (PSB), resolveu diluir o bloco para que Tabosa fosse membro permanente da CCRJ, a manobra deu certo, pois conseguiu essa cadeira no colegiado.  

Ele também afirma não gostar do termo oposição e se classifica como um “parlamentar independente e de posição”.

Ao ser perguntado pelo Correio do Estado se a luta contra um inimigo em comum – a pandemia de Covid-19 – tem, de alguma forma, aproximado adversários, o parlamentar afirmou que é possível, sim, fazer essa leitura, porém ele afirma que fiscalização e cobrança são papéis dos legislativos e lamenta a falta delas em alguns parlamentares aliados.  

“Hoje, é muito difícil votar contra alguma medida que venha do governo municipal e de alguma forma não seja o ideal para a sociedade campo-grandense. O prefeito tem, hoje, no mínimo 19 parlamentares da base aliada que votaram a favor dele, independentemente do projeto".

"Temos, sim, uma inimiga comum, que é a Covid-19, e por esse motivo votei a favor da compra emergencial de vacinas. Porém, venho denunciando a precariedade das nossas Unidades Básicas de Saúde [UBSs], não com intuito de avacalhar, mas, sim, de apontar as dificuldades delas e as soluções para resolver esses problemas”, concluiu.

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