Política

Nepotismo

Prefeitos do interior nomeiam parentes em cargos de comissão

Apesar de proibida, prática ocorreu em cidades do interior e, em alguns casos, os parentes foram exonerados

Gabrielle Tavares

10/05/2021 - 08h06

Prefeitos de ao menos cinco municípios de Mato Grosso do Sul tentaram contratar parentes como servidores comissionados em órgãos dos Executivos municipais. Em Juti, Miranda e Sidrolândia as nomeações foram quase o primeiro ato dos prefeitos e ocorreram logo nos primeiros dias dos mandatos.

Em Bandeirantes, o prefeito interino, Gustavo Sprotte (DEM), tentou, na Câmara Municipal, mudar a lei para nomear parentes. Já em Corumbá, o prefeito reeleito Marcelo Iunes (PSDB) nomeou o irmão, a cunhada e o concunhado durante o primeiro mandato.

 

No município de Juti, Gilson Marcos da Cruz (PSD) nomeou, na primeira semana de mandato, a própria esposa, Paula Regina Santoro da Cruz, como secretária municipal de Assistência Social. 

A nomeação no primeiro escalão da prefeitura foi publicada no dia 8 de janeiro com o maior salário entre os cargos de direção e de assessoramento, R$ 5 mil.

Mas o cargo comissionado durou pouco. Com medo de sofrer denúncias de nepotismo, o prefeito Gilson exonerou, em apenas quatro dias, a primeira-dama e colocou em seu lugar Cleuza Cavalcante da Silva.

O mesmo aconteceu em Sidrolândia. Um dos primeiros atos de Vanda Cristina Camilo (PP) como prefeita interina foi a nomeação em cargos comissionados de dois sobrinhos e da cunhada, em entidades vinculadas ao Executivo.

Vanda nomeou a sobrinha Ana Cristina de Souza com o cargo em comissão de assessora especial de apoio administrativo, vinculado à Secretaria de Fazenda, Tributação e Gestão Estratégica do município. 

A prefeita ainda nomeou a cunhada Ione Almeida de Azevedo para o cargo de chefe da Divisão de Desenvolvimento da Micro e Pequena Empresa e do Empreendedor Individual.

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Porém, após sofrer pressão popular pelas nomeações, Vanda recuou e exonerou os parentes. Os três familiares empregados na quinta-feira (7) foram demitidos já na segunda-feira (11), sem justificativa ou manifestação de Vanda.

No município de Miranda, o prefeito Edson Moraes (PSDB), falecido recentemente por Covid-19, também nomeou parentes na prefeitura. 

O filho Gedivaldo Ramalho de Souza é o atual secretário municipal de Administração e Finanças e o irmão Mauro Moraes de Souza recebeu o cargo de gestor municipal de assistência social.

Mudança de Lei

No município de Bandeirantes, em março, o prefeito interino, Gustavo Sprotte (DEM), enviou para a Câmara Municipal projeto de emenda à lei orgânica com o objetivo de permitir a nomeação de cônjuge ou parentes na administração municipal.

Na justificativa do prefeito aos vereadores, Sprotte afirmou que a lei atual “reduz de forma substancial as nomeações na administração pública municipal […], afastando pessoas capacitadas que em nada se relacionam com grau de parentesco com a autoridade nomeante ou superior hierárquico”.

O projeto ainda não foi apreciado pelos vereadores e até o momento a lei orgânica de Bandeirantes segue a Constituição Federal e proíbe cônjuges, companheiros ou parentes consanguíneos, até o terceiro grau, de membros ou titulares da administração municipal de ocuparem cargo em comissão ou função gratificada, mesmo que o cargo ou função não esteja diretamente subordinado ao familiar do nomeado.

Nepotismo

Em Corumbá, o prefeito Marcelo Iunes (PSDB) foi denunciado pelo Ministério Público Estadual (MPE) por suposto nepotismo ao nomear parentes na prefeitura. 

Em 2017, a cunhada Marcelle Andrade Teixeira foi nomeada como gerente de proteção social básica na Secretaria Municipal de Saúde, com salário de R$ 7.334.

Dois anos depois, Iunes nomeou o irmão Eduardo Aguilar Iunes na Junta Administrativa da Associação Beneficente da Santa Casa de Corumbá, e ele passou a receber salário de R$ 17.644,00, somando o cargo efetivo e o comissionado.

No mesmo ano, Marcelo Iunes ainda nomeou, com salário de R$ 6.360, Eduardo Alencar Batista, companheiro da sua irmã Ariane Tomie Balancieri, como assessor na Secretaria Municipal de Educação. As nomeações renderam investigação e denúncia do MPE no ano passado.

Um outro lado

Um exemplo diferente veio do município de Costa Rica. Prefeito de “primeira viagem”, o delegado Cleverson Alves tomou o caminho contrário. Ao analisar com o jurídico da prefeitura a situação de Rosarie Silva Pereira, o chefe do Executivo municipal decidiu exonerá-la.  

Rosarie é cunhada de Cleverson e estava nomeada no cargo de chefe de serviços administrativos e lotada na Secretaria de Administração e Finanças desde março de 2013, com salário-base de R$ 1.561,65.

O Supremo Tribunal Federal considerou, para efeito de nepotismo, os parentes até o terceiro grau, sem distinguir os tipos de parentescos (consanguíneos ou por afinidade) e considerando todas as linhas (retas ou colaterais).

Com os entendimentos jurídicos, Cleverson exonerou a cunhada do cargo comissionado ligado à prefeitura.

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