Parlamentares da bancada federal de Mato Grosso do Sul divergem quanto a demanda do presidente Jair Bolsonaro, do PL, que empenhou-se pelo reajuste salarial dos policiais, que é uma parcela de sua base eleitoral.
A medida desagradou parte dos servidores federais, a da Receita Federal uma delas.
Por empenho pessoal de Bolsonaro, policiais federais, rodoviários federais, do Departamento Penitenciário Nacional e do Ministério da Justiça, tiveram os reajustes garantidos graças a inclusão de gastos de R$ 1,7 bilhão, recurso previsto no Orçamento para 2022, aprovado anteontem pelo Congresso Nacional.
Assim que a proposta foi aprovada, os chefes de unidade da Receita Federal, inclusive os que atuam em unidades de MS, reagiram contrários à medida e entregaram seus cargos.
Para a classe, os reajustes aos policiais só foram assegurados porque houve corte no orçamento da Receita, daí os servidores da categoria ficaram sem o benefícios.
Ou seja, as polícias ganharam aumento com recursos da Receita, na interpretação do comando nacional do Sindifisco (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil).
Loester Trutis, deputado federal do PSL, aliado de Bolsonaro, enxerga como justo o reajuste para a polícia.
“Com todo o respeito aos servidores da Receita, o trabalho que a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal desempenham no combate à droga e ao crime organizado, é incomparável."
"Sem contar pelo Plano de Cargos e Carreira, olha quanto entra ganhando um técnico analista da Receita e um agente da PRF ou um inspetor da PRF, incomparável”, afirmou o parlamentar.
“O legal, é que esses servidores que entregaram seus cargos, que a grande imprensa vincula na tentativa de falar que os servidores públicos federais são, num todo, contra Bolsonaro, o que é uma notícia mentirosa."
"Tanto que eles [chefes das unidades da Receita] entregaram os cargos de chefia, que normalmente são modificados quando troca a superintendência, no começo do ano seguinte. Isso é uma narrativa, né. Por que não pediramn exoneração?”.
Trutis contestou ainda o protesto dos servidores da Receita: “entregar o cargo de chefia que logo será trocado, é uma coisa."
"Se realmente tem algo errado, que esses caras peçam exoneração, ai eu queria ver”, opinou o deputado.
Comedido, o senador sul-mato-grossense Nelsinho Trad, do PSD, também apoiador de Bolsonaro nas votações de projeto no Senado, disse que “as manifestações democráticas são direitos de toda categoria, mas o diálogo é a melhor alternativa e o mecanismo mais eficaz para a pacificação."
"Só assim, se encontra uma solução para ambas as partes, onde me coloco à disposição para procurar esse entendimento entre os servidores públicos e o governo federal”.
MAIS REPERCUSSÃO
O deputado federal Vander Loubet, do PT, culpou a falta de diálogo de Bolsonaro com as categorias.
“Há três questões importantes nessa situação que a gente tem que pontuar. Primeiro: conceder reajuste aos servidores da PF, PRF e DEPEN é uma causa justa, importante.
Porém, há uma segunda questão que é a seguinte: ao cobrar do Congresso o reajuste dessas categorias, o governo gerou um corte no orçamento dedicado à Receita Federal.
E isso leva a gente a um terceiro ponto: o trabalho da Receita Federal é essencial, fundamental, para que o governo combata a sonegação fiscal e a corrupção, o que é importante para a manutenção do orçamento público”.
Dagoberto Nogueira (PDT), vai na mesma linha. “A questão não é nem a categoria que foi beneficiada ou não é que este governo não têm planejamento, ataca todos os trabalhadores o tempo todo e tem uma política extremamente destrutiva nos direitos a classe trabalhadora”, afirma.
“É um absurdo atrás de outro absurdo. Com todas as investigações e acusações que rondam sua família com certeza possui interesse no desmonte da Receita Federal”, insinua.
Fábio Trad, deputado federal pelo PSD, vê razão no protesto dos servidores da Receita e acha que o governo de Bolsonaro deve ouví-los.
“Os chefes da Receita têm razão nos seus descontentamentos, o presidente Bolsonaro fez uma opção, optou por priorizar na questão remuneratória os policiais e a Câmara e o Senado, chancelaram."
"E agora? Hoje, sentar à mesa, olho no olho, governo federal e os chefes da Receita para fazer uma recomposição, existem outras formas que minimizam esta opção adotada pelo chefe do Executivo, que foi chancelada pelo parlamento."
"A Receita não pode ficar a reboque dessas prioridades elencadas pelo presidente Bolsonaro”.
Fábio conclui o raciocínio dizendo que é possível alcançar o consenso: “acredito que haverá maior intensificação das pressões por aumento salarial, uma vez que se houve precedente para uma outra categoria, evidentemente sinaliza a possibilidade de o orçamento suportar outros reajustes”.
A reportagem tentou falar com todos da bancada federal de MS, mas nem todos responderam ao questionamento.