Política

Eleições 2022

Cientistas políticos comparam diferenças de gestão do Estado entre Riedel e Contar

Especialistas analisam os cenários de ambos, caso o candidato Lula ou o Bolsonaro vença a eleição para Presidência da República

Eduardo Miranda

29/10/2022 - 16h40

No próximo domingo, dia 30 de outubro, os eleitores de Mato Grosso do Sul vão às urnas para eleger o novo governador entre os candidatos Eduardo Riedel (PSDB) e Capitão Contar (PRTB). Nesse sentido, a reportagem do jornal Correio do Estado procurou os cientistas políticos Daniel Miranda, Tércio Albuquerque e Tito Machado para analisarem quais as principais diferenças entre ambos na forma de governar o Estado pelos próximos quatro anos.

 

Além disso, os três cientistas políticos ainda fizeram uma comparação de como será a relação de Riedel e Contar na eventualidade de o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seja o vitorioso no pleito do próximo domingo ou no caso de o vencedor for o atual presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (PL). Eles também projetaram quais seriam os reflexos para Mato Grosso do Sul no cenário em que Lula seja o presidente ou no cenário em que Bolsonaro continue à frente do cargo.

 

Para o cientista político Daniel Miranda, com relação à diferença na gestão, no caso do Capitão Contar é uma incógnita porque, no caso do Eduardo Riedel, já sabemos que será uma continuidade do modelo adotado pelo governador Reinaldo Azambuja (PSDB), ou seja, investimentos em grandes projetos estratégicos na área de infraestrutura, seja para a geração de mais empregos, seja porque isso vai ajudar no escoamento da produção agropecuária, sendo que a consolidação da Rota Bioceânica é o grande símbolo.

 

"Já com relação ao Capitão Contar, ainda não é possível ter uma ideia do que poderemos esperar da sua gestão, pois não temos qualquer informação sobre como será sua equipe de secretários e nem sobre qual direção ele pretende dar ao seu Governo. Como Mato Grosso do Sul é um estado pequeno e com uma estrutura econômica não muito diversificada, o candidato do PRTB não terá como fugir muito do fato incontornável do peso do agronegócio", projetou Daniel Miranda.

 

Ele completa que, por isso, acredita que Contar fará uma administração não muito diferente da atual gestão do ponto de vista da política econômica, focando na melhoria da infraestrutura e tornando a máquina governamental um suporte para o agronegócio. "Agora, o bolsonarismo emergiu com uma pauta cultural e moral muito forte e, talvez, uma grande mudança, caso haja, será no plano das políticas voltadas para as minorias, para a cultura e para a educação", analisou.

 

No plano de Governo do Contar, conforme o cientista político, há a previsão de aumento do número de escolas cívico-militares, mas, não é possível saber de que forma esse tipo de projeto irá avançar de forma efetiva. "No entanto, sabemos que, para o bolsonarismo, esse campo de atuação é muito relevante, então, penso que, talvez, as grandes novidades serão nas áreas das políticas voltadas para as minorias, para a cultura e para a educação", afirmou.

 

Combate à corrupção

 

Por outro lado, de acordo com Daniel Miranda, como o Capitão Contar tem um discurso muito forte de combate à corrupção, deve tentar fazer, na medida do possível, aquilo que o presidente Jair Bolsonaro fez no primeiro momento quando assumiu, que foi de fazer indicações para os ministérios de nomes sem muito ligação com partidos políticos. "No entanto, isso não durou muito, pois logo o Bolsonaro abraçou os políticos do Centrão, porém, no caso dos governadores, eles têm uma vantagem em relação à Presidência da República, porque são detentores de um poder maior sobre o Poder Legislativo ou sobre outros órgãos de controle", ponderou.

 

Ele lembrou que, no caso do presidente, o Congresso Nacional é muito mais forte diante do chefe do Executivo do que a Assembleia Legislativa é diante do governador. "Portanto, ele terá uma certa liberdade para montar o seu secretariado e, como está prometendo que serão nomes técnicos, deve tentar fazer isso. Agora, qual estilo ele vai imprimir na sua gestão, se será um mais centralizador ou menos centralizador, não é possível afirmar, pois nunca ocupou o cargo de chefe do Executivo municipal ou estadual", apontou.

 

Já o cientista político Tércio Albuquerque ressaltou que há situações muito particulares neste 2º turno das eleições porque nós temos dois candidatos a governador que estão sendo apoiados pelo mesmo candidato à Presidência da República, que é o Jair Bolsonaro. "Em tese, o Bolsonaro está neutro, mas Riedel conta com uma vantagem que é o apoio da senadora eleita Tereza Cristina (PP). Nesse sentido, a diferença fundamental é que o Capitão Contar não tem nenhuma experiência administrativa e nem política", afirmou.

 

Ele acrescentou que o Capitão Contar tem apenas um pequeno período de mandato legislativo como deputado estadual e que não se pode estabelecer como parâmetro para se ter conhecimento sobre como funciona uma máquina administrativa do Poder Executivo estadual. "Principalmente de Mato Grosso do Sul, que tem um orçamento bilionário, muitas questões políticas precisam ser tratadas e, obviamente, Contar não tem nenhuma experiência nisso", pontuou.

 

Na avaliação do cientista político, Riedel, com todo o tempo que trabalhou ao lado do governador Reinaldo Azambuja aliado com sua atuação empresarial na iniciativa privada, bem como à frente da Famasul e do Sebrae/MS, tem muito mais experiência administrativa e também alguma experiência política. "Nesse tempo em que conviveu no Governo do Estado, ele fez vários movimentos políticos direcionados já para a sua futura candidatura a governador. É muito mais importante entender que a gestão estadual estaria melhor nas mãos de Eduardo Riedel do que nas mãos do Capitão Contar", assegurou.

 

Para o cientista político Tito Machado, a diferença entre a gestão de Eduardo Riedel e a do Capitão Contar é que o segundo é um capitão do Exército e, dentro do contexto político, seria um aventureiro. "Totalmente diferente do Riedel, que é um empresário e sempre esteve, de certa forma, envolvido na política, não diretamente, mas dentro do jogo político. Ele já tem um certo traquejo com o setor político e uma habilidade para as questões políticas, enquanto o Contar é um sujeito desconhecido para a maioria da população e as informações ao seu respeito são pequenas, não sabemos a experiência dele em termos administrativos e nem em termos políticos", analisou.

 

Tito Machado reforça que essa diferença fundamental entre um e outro em termos de gerir o Governo do Estado é imprescindível. "Quem não tem habilidade política, terá muito mais dificuldades do que já tem. A política não é uma questão qualquer, ela é uma arte e o sujeito para tratar com a política precisa vivenciar essa arte de certa forma", opinou.

 

Combinações

 

Na avaliação do Daniel Miranda, para o candidato Eduardo Riedel, no caso de Lula ou de Bolsonaro vencer a eleição para a Presidência da República, não terá muito diferença porque, a exemplo do governador Reinaldo Azambuja, que foi eleito em 2014 na gestão da então presidente Dilma Rousseff (PT) e reeleito em 2018 com o Bolsonaro assumindo o cargo, não teve qualquer tipo de problemas com nenhum dos dois, e assim também será com Riedel, pois, tanto ele, quanto Azambuja, são pessoas pragmáticas.

 

"Se o Bolsonaro vencer e for reeleito, Riedel, como declarou apoio ao candidato do PL, terá uma boa interlocução com o Palácio do Planalto, não deve ser nada atribulado. Por outro lado, caso o Lula seja eleito, também não vejo grandes problemas porque a presença da senadora Simone Tebet (MDB) na campanha do petista, que pode até ocupar algum cargo no futuro governo do PT, lhe dará uma excelente interlocução com o presidente da República", analisou.

 

Além disso, conforme ele, Simone Tebet é de Mato Grosso do Sul e ligada ao agronegócio, funcionando como uma ponte direta de Riedel a Lula. "Afinal, ao mesmo tempo em que se declara bolsonarista aqui no estado, em nível nacional, ele não está atacando a candidatura de Lula, pelo contrário, está explorando ao máximo a postura de neutralidade de Bolsonaro aqui em Mato Grosso do Sul", ressaltou.

 

De acordo com o cientista político, Riedel não está atacando o PT para não se colocar em uma posição que depois vá gerar uma discórdia na possível gestão de Lula no Palácio do Planalto. "Pelo contrário, aqui no estado os políticos petistas mais fortes estão com o Riedel, como é o caso do deputado estadual eleito Zeca do PT, que tem uma forte aproximação com Lula", lembrou.

 

Já no caso do Capitão Contar, na avaliação de Daniel Miranda, caso o Bolsonaro seja reeleito, obviamente terá uma excelente interlocução, estará sempre apoiando a administração do presidente reeleito. "No caso de o Lula vencer a eleição, o Capitão, diferentemente do Riedel, está batendo muito forte no candidato do PT. Para conseguir ir para o 2º turno, ele precisou nacionalizar as eleições e, a todo momento, se apresentou como o representante de Jair Bolsonaro, usando o vídeo em que o presidente declarou apoio a sua candidatura ao Governo do Estado", citou.

 

Para fazer sentido esse vínculo com o Bolsonaro, conforme o cientista político, Contar atacou e continua batendo no candidato petista. "Agora, em que medida o Lula vai se lembrar disso quando assumir a Presidência da República, não é possível saber porque, querendo ou não, o Governo do PT será uma gestão de frente ampla, pois tentarão reconstruir as alianças e ampliar suas bases de apoio nos estados. Se o Contar fizer um gesto via Simone Tebet, dizendo que como governador precisará manter uma via aberta de comunicação com o Lula, com certeza será construída uma ponte", projetou.

 

Entretanto, Daniel Miranda não acredita que Lula terá interesse em sabotar a gestão do Capitão Contar em Mato Grosso do Sul. "Porém, se ele insistir em uma postura mais rígida e inflexível, ser um governador de oposição a Lula, com certeza terá impactos sobre o estado, embora o agronegócio estadual seja muito forte e caminhe com as próprias pernas, não precisando do governador para articular algo junto à União", previu.

 

Outra visão

 

Na situação em que Riedel seja eleito com o Lula presidente, Tércio Albuquerque não vê muita dificuldade dele com a gestão federal porque terá, por exemplo, o apoio da senadora eleita Tereza Cristina, que é uma grande defensora dos interesses de Mato Grosso do Sul. "A votação expressiva que a Tereza Cristina teve no estado e o histórico de vida particular e pública que ela tem não trará grandes problemas para Riedel, tendo o Lula como presidente da República", analisou.

 

Para ele, há ainda a senadora Simone Tebet que, estando com o Lula, estará com Mato Grosso do Sul e, eventualmente, com a vitória do PT, há uma grande chance de ser uma ministra em áreas pontuais, como na educação e até na agricultura e pecuária, representando também uma situação mais cômoda para o estado na gestão de Riedel. "A bancada federal também está muito bem definida e acredito que o estado, ainda que Lula não tenha tido aqui uma boa votação no 1º turno e talvez não tenha no 2º turno, não impactaria na interlocução dele com o Riedel", afirmou.

 

Agora, de acordo com o cientista político, no caso de o vencedor da eleição presidencial ser Jair Bolsonaro, Riedel poderá enfrentar dificuldades devido a resistência que ele tem com algumas alas dos bolsonaristas, inclusive com aqueles que foram eleitos para a Câmara Federal. "Assim, Riedel só teria o apoio da Tereza Cristina na interlocução com Bolsonaro, mesmo assim, tanto com Lula, quanto com Bolsonaro, não terá maiores dificuldades para se relacionar com o Palácio do Planalto", argumentou.

 

No caso do Capitão Contar, para Tércio Albuquerque, o quadro já seria mais complicado, pois, na eventualidade da vitória do Lula, Mato Grosso do Sul teria problemas, afinal, o candidato do PRTB está muito agressivo em relação à candidatura do PT à Presidência da República. "Contar é inexperiente na política e teria de formar grupos, os quais está tentando costurar agora para mostrar à população estadual que tem uma estrutura para governar, pois, sozinho, sabe que não tem nenhuma capacidade para isso. Por isso, acredito que o Capitão teria grande dificuldade de articulação, inclusive com a bancada federal, porque está sozinho, já que o apoio da Tereza Cristina não seria o mesmo do destinado ao Riedel", assegurou.

 

Ele completa que, se logicamente o presidente Jair Bolsonaro for reeleito, o Capitão Contar tem uma ligação muito próximo, mas, isso, por si só, talvez não seja suficiente porque o deputado estadual não tem conhecimento de infraestrutura administrativa, não tem experiência, passando mais dificuldade até que passe a entender a máquina e, mais do que isso, ficará a mercê de políticos do seu partido fora de Mato Grosso do Sul para tentar auxiliá-lo na construção de um governo Contar-Bolsonaro para o estado. "Historicamente, em casos parecidos, o governo central manda quem deve ajudar um governador sem base política e de infraestrutura administrativa, portanto, teríamos pessoas estranhas a Mato Grosso do Sul para tentar ajudar o Contar, caso Bolsonaro vença", alertou.

 

Já Tito Machado explicou que, no caso da eleição do Lula para a Presidência da República, com relação ao Eduardo Riedel não vê nenhum grande problema. "Exatamente porque ele tem experiência política e não terá dificuldade para lidar com o candidato petista. Além disso, com Bolsonaro será ainda mais fácil a relação, pois ambos estão ideologicamente mais próximos. O Riedel ainda conta com instrumentos e pessoas dos quais pode se aproximar também para tratar em um eventual governo do Lula", analisou.

 

No caso do Capitão Contar, conforme ele, a relação será muito mais complicada no caso da vitória do Lula e essa é a tendência. "No caso da vitória do Bolsonaro, ele pode se arranjar, pois o presidente já foi militar e passou pelas mesmas dificuldades que o Contar passará, guardadas as respectivas proporções. Na eventualidade de Lula ganhar, a situação ficaria mais desconfortável para Contar, embora o candidato do PT seja um grande político e, evidentemente, não fará nada contra Mato Grosso do Sul por ter um governador que apoiou Bolsonaro. O Lula não tem esse tipo de perseguição política no seu passado, ele nunca fez isso na sua trajetória política, mas, com certeza, o jogo político que tem de ser jogado com o Palácio do Planalto será mais difícil", finalizou.

 

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