Política

entrevista

"Eu tenho uma visão clara de que o MDB e o PSDB devem caminhar juntos"

À frente da articulação política do governo de Eduardo Riedel, o secretário da Casa Civil, Eduardo Rocha, fala sobre as próximas eleições, investimentos e fábrica de fertilizantes

Eduardo Miranda

29/04/2023 - 10h01

O entrevistado desta semana é o secretário-chefe da Casa Civil do governo de Mato Grosso do Sul, Eduardo Rocha, ex-deputado estadual e marido da ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet (MDB).

Na Casa Civil, Rocha comanda a articulação política do governo nas esferas estadual e federal e diz que a missão não é difícil, justamente por causa do bom trabalho que o governador Eduardo Riedel (PSDB) vem desempenhando. 

Eduardo Rocha, em entrevista exclusiva ao Correio do Estado, adianta que a retomada da fábrica de fertilizantes da Petrobras deve ser anunciada em maio e também fala sobre os impactos da reforma tributária no Estado.

Sobre política, disse que pretende ver o MDB, partido ao qual é filiado, caminhando com o PSDB de Eduardo Riedel e Reinaldo Azambuja nas próximas eleições. 

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Como estão os pleitos do governo de Mato Grosso do Sul com o governo federal?

Está tudo andando, só que não vão sair do dia para a noite. Na primeira ida para Brasília, o governador garantiu com a ministra Simone, e a ministra fez questão e faz questão de ir em todas as agendas com o governador Eduardo Riedel. E nós fomos na primeira agenda com o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, que já garantiu apoio ao Estado. 

Nós fomos, principalmente, no tocante às demarcações, à questão indígena, que é mais grave e precisa ter uma solução. E a solução é comprar terra. A União compra e acabou. 

Depois nós fomos em uma agenda com o ministro dos Transportes, Renan Filho, que garantiu ao Estado nesta ida nossa R$ 1 bilhão, valor que já está no Orçamento.

E, deste R$ 1 bilhão, são R$ 150 milhões para a continuidade da BR-419, R$ 100 milhões para a alça da ponte de Porto Murtinho, R$ 93 milhões para o contorno rodoviário de Três Lagoas e aproximadamente R$ 100 milhões para o recape e terceira pista da BR-262, entre Água Clara e Ribas do Rio Pardo, porque tem um trecho de 40 quilômetros ali que está ruim.

E também garantiu R$ 40 milhões para o viaduto em Ribas do Rio Pardo, porque ali vai ter de fazer um viaduto. E o restante do dinheiro foi para manutenção das outras rodoviais federais.

Então, tem dinheiro. Eu, por exemplo, vim de Três Lagoas nesses dias e nunca vi a rodovia tão boa como está agora. Não caí em um buraco sequer. Mas tem muito movimento e vai precisar duplicar. 
 
Mas vai haver uma concessão da BR-262 à iniciativa privada?

Tem de concessionar. Praticamente não existe rodovia duplicada do governo. Se você vai ao estado de São Paulo, todas as rodovias duplicadas são concedidas à iniciativa privada, e olha que lá são pouquíssimas as rodovias federais.

O Riedel falou com o diretor da ANTT [Agência Nacional de Transportes Terrestres], ele foi recebido lá. Fomos lá para tratar das BRs 163, 267 e também da retomada da linha férrea [Malha Oeste], de Três Lagoas a Corumbá.

No início do mandato, o governador Riedel disse que, se a União não quiser, o Estado aceita delegar. Como está esse processo?

É isso mesmo. Se a União não quiser, mande para nós, que nós fazemos. Nós acabamos de licitar um pedaço de uma BR e um pedaço de uma MS, que inclui a MS-112 e a BR-158. 

Fizemos duas rodovias paralelas, para evitar o escape e a sobrecarga em uma rodovia só. 
Por isso, quando for licitada a BR-267, entre Nova Alvorada do Sul e Bataguassu [prevista para ser relicitada com a BR-163], vamos ter de licitar a MS-040.

E sobre a Malha Oeste, como está a articulação com o governo federal para ela sair antes do prazo previsto?

Estamos torcendo para isso. Porque está marcado para março. E precisa, porque estamos com grandes investimentos em celulose, temos a J & F, que comprou a operação de minério da Vale, em Corumbá.

Ela quer aumentar a produção de minério de forma exponencial e pretende investir mais de R$ 1 bilhão em Corumbá. E a fábrica de Ribas, quando ficar pronta, teremos filas de carretas. Por isso é tão importante a retomada da Malha Oeste.
 
A ministra Simone Tebet está empenhada neste e em outros projetos para Mato Grosso do Sul?

Sim, a ministra está empenhada com as concessões, com projetos que desenvolvem o Estado e, hoje, eu digo, ela tem muita força dentro do governo federal.

Conseguimos, com o ministro Flávio Dino, apoio para a nossa região de fronteira: o governador Eduardo Riedel pediu, e Flávio Dino viabilizou a construção de mais dois presídios aqui no Estado. 

E estamos esperando uma agenda com o ministro Jader Filho, das Cidades, que é para cuidar de casas. Queremos fazer casas. E a gente quer ver se consegue as casas por meio do convênio da Agehab [Agência de Habitação Popular de Mato Grosso do Sul] e, por meio dela, levar para todos os municípios. 

A habitação tem um apelo muito forte, e virá uma ação muito forte do governo federal. E estaremos empenhados também nesta parceria. Habitação gera emprego, gera renda, tira as famílias da rua, do aluguel. E tem mais, a construção civil emprega bastante. 

E quais as próximas demandas nessa articulação com o governo federal?

Depois de todas essas agendas que falei, com os ministros e com a Petrobras, vamos discutir a reforma tributária. 

E o Estado pode perder com ela?

Talvez em um primeiro momento, porque temos fábricas incentivadas [com incentivos fiscais] até 2032. Só que o incentivo que elas têm é de 70% a 90% sobre uma alíquota de ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] de 17%. Se a alíquota do ICMS vai baixando gradativamente [após a reforma], pode ficar desinteressante para algumas delas.
 
Mas esse impacto da reforma atingiria o setor da celulose?

De forma alguma. No caso da celulose, não tem como mudar. Ela está aqui, as florestas estão aqui, tudo está aqui. Então, nesse setor, que é grande e tem uma cadeia muito consolidada, não há grandes problemas. 

No caso das outras indústrias, pode ser que tenhamos problemas. Mas, pelo que eu sei, Brasília está empenhada nisso também, em criar um mecanismo para proteger as fábricas. Principalmente nossa bancada, a bancada de Goiás, de Mato Grosso e de estados do Norte e do Nordeste, onde estão as indústrias incentivadas. 

A questão da UFN3 será decidida em breve?

Sim, será. Nós vamos agora marcar uma agenda com o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, e mostrar a necessidade de concluirmos a fábrica de fertilizantes, que vai produzir 1,3 milhão de toneladas, a maior da América Latina, e que está 80% pronta.

E a Petrobras vem cuidando dela. No ano passado, em dezembro, foram contratadas duas empresas e foram dois técnicos fazer vistoria. 

Eu cheguei a conversar com um dos técnicos, e a fábrica, mesmo estando há tanto tempo paralisada, não estragou. A Petrobras mantém lá mais de 50 funcionários, está cuidando da estrutura. Então, é só pegar e terminar. 

Esse é o grande desafio, e, se nós conseguirmos isso, eu acho que é um ponto muito forte para o governador Eduardo Riedel: terminar, inaugurar e entregar essa fábrica. 

Mudando para a questão política, qual é diferença entre atuar na Casa Civil do governo Eduardo Riedel e ter sido secretário de Governo de Reinaldo Azambuja?

Eu trabalhei um ano e um mês com o governador Reinaldo, um baita de um governador, com experiência de gestão e política, isso é inegável. Acho que o governador Reinaldo tem um legado que vai marcar a história de Mato Grosso do Sul.

Lá na Assembleia [Legislativa de Mato Grosso do Sul], quando era deputado, também acompanhei os oito anos de mandato do Reinaldo e é inegável o excelente trabalho dele. 

O governador Riedel veio no “mesmo batidão”. Ele vem fazendo tanto, que nós vimos aí uma pesquisa que mostra que, em 100 dias de gestão, tinha 78% de aprovação. Isso não é fácil. Isso quer dizer que o governo está em ordem.

Pegou uma máquina andando a todo vapor, e é muito difícil substituir uma pessoa igual ao Reinaldo, que terminou com 75% de aprovação. 

Substituir um governo que teve problemas de gestão e de popularidade, que teve dificuldades de fazer pagamentos, é uma coisa. Agora, substituir um governo que em todas as áreas vai bem, é muito difícil.

Por isso eu digo que o governador Riedel tem trabalhado muito, ele cobra muito da gente, dos secretários e das secretárias. A gente chegando em quatro meses de governo, vejo que o governo está de parabéns, com cada um fazendo o seu papel.

E a articulação com os deputados, como está?

Aqui a gente toca a relação com a Assembleia Legislativa. Temos grandes aliados, e os Poderes são harmônicos, mas também independentes. Mas não tem havido problema. O presidente Gerson Claro exerce a presidência com maestria, e lá os deputados sabem da responsabilidade de cada um. Eu conheço muito a Casa, estive lá por 12 anos. Conversei muito com eles. 

Coisas muito grandes vão acontecer no governo Eduardo Riedel. Inauguração da fábrica de Ribas do Rio Pardo, e isso mexe com o PIB nacional. Nós passamos por isso em Três Lagoas.

Nós sabemos como uma fábrica como essa transforma a vida das pessoas, a vida do lugar. Transforma a vida de milhares de pessoas. Aqui, eu já escutei de dono de imobiliária que o aluguel melhorou. 

Aí tem a fábrica de fertilizante, também. Tem tudo para inaugurar no governo do Riedel. Essa operação da J & F, muito forte. O que nós tínhamos de mais lento era a alça da ponte.

E a Rota Bioceânica, ela deslancha nesses próximos quatro anos?

Sim, porque o que tínhamos mais medo era da alça da ponte, não era da ponte. A alça da ponte vai custar R$ 180 milhões. Mas não conseguimos fazer todo o valor em 1 ano, por isso o governo federal garantiu R$ 100 milhões agora.

A alça da ponte custa mais porque ela é suspensa, e na margem do Rio Paraguai é toda uma região de banhado [Pantanal]. Em resumo, a alça é como se fosse uma outra ponte. Não é somente uma alça, em que se faz um aterro e mais 11 quilômetros de asfalto. Se fosse apenas isso, faríamos com menos. 

Também terá o estacionamento da alfândega, tudo isso. Mas a previsão é de que até o fim do mandato tudo isso esteja pronto.

Secretário, como é para acomodar na mesma base parlamentares do PT e do PL?

Eu vou dizer uma coisa, tem que ser ninja. Nós somos do Centro Democrático e temos consciência de que tanto a esquerda quanto a direita querem o bem de Mato Grosso do Sul. Eles querem ver o Estado bem e votam com o governo porque acreditam no governo. 

Dentro da nossa base, eles têm suas diferenças e vão continuar tendo. Mas cada um com sua ideologia, e nós temos que respeitar isso. Queremos fazer um governo acima das ideologias. O governo tem que ser para nossa gente, para o nosso povo. Nós temos que gerar emprego, nós temos que melhorar a vida das famílias. 

O governador Riedel só vê vantagem em largar todos os seus negócios e estar aqui no governo se for para melhorar a vida das pessoas. Se for para ter casa para todo mundo, ter programas sociais, energia social, carteira social, conseguir ajudar as pessoas. Agora vai lançar a carteira social para caminhoneiro.

Como o MDB fica no pós-eleição?

Eu enxergo que tanto o MDB quanto o próprio PSDB têm uma visão clara de que eles precisam caminhar juntos. A vida inteira estivemos juntos. A Marisa Serrano, do PSDB, por exemplo, foi vice-prefeita pelo MDB. Já estivemos juntos nas eleições.

Tem a vontade dos deputados, do ex-governador André Puccinelli e do nosso ex-senador Moka. 

Então existe essa disposição de aliança futura entre os dois partidos?

Dos dois lados. Na eleição passada, mesmo sendo adversários, não houve nenhuma agressão, nenhuma farpa entre o Riedel e o André. O respeito sempre foi muito grande entre os dois. Eu acho que o MDB e o PSDB têm tudo para caminhar juntos, mesmo nas eleições para prefeito.

É preciso conversar cidade por cidade, conversar sobre Campo Grande. Precisamos todos sentarmos e vermos a cidade onde cada um é mais forte. 

E sobre a mudança do domicílio eleitoral da Simone Tebet para São Paulo, até que ponto isso procede?

O que existe é um apelo muito forte do estado de São Paulo com a Simone Tebet, e também do presidente do MDB, Baleia Rossi. A Grande São Paulo tem 20 milhões de habitantes, é o coração do Brasil, e a Simone obteve muitos votos lá nessas eleições. Ela sempre está lá discutindo o Brasil, participando de palestras.

Mas não dá para saber. Eu prefiro que ela fique com o domicílio eleitoral aqui em Mato Grosso do Sul. Mas ainda não sabemos nem mesmo o que ela vai disputar e se vai disputar, não é? O futuro a Deus pertence, e o que queremos agora é trabalhar.

Ela está no governo do presidente Lula para mostrar serviço. Temos que trabalhar para dizer que o Brasil tem jeito, que não precisa de radicalização e que é um país onde a direita respeita a esquerda e a esquerda respeita a direita. Essa briga tem que acabar. 

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