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CCJ do Senado "enterra" PEC da Blindagem por unanimidade

Relator disse que texto abriria portas do Congresso para crime organizado; A aprovação da PEC na Câmara teve ampla rejeição popular

Estadão Conteúdo

24/09/2025 - 14h30

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal rejeitou em votação unânime nesta quarta-feira, 24, a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Blindagem, que impede o andamento de processos criminais contra parlamentares, sem autorização do Congresso.

O presidente do colegiado, Otto Alencar (PSD-BA), e o relator da PEC, Alessandro Vieira (MDB-SE), trabalharam para “enterrar” a proposição.

O placar terminou com 26 votos favoráveis ao parecer e nenhum contra. Mesmo sem precisar votar por ser o presidente do colegiado, Otto também se manifestou contrário à PEC.

“Eu quero esclarecer que o presidente só vota em caso de empate. Mas eu voto ‘sim’ ao relatório do senador Alessandro Vieira”, disse.

O texto deve ir a plenário ainda nesta quarta. Otto afirmou que há um compromisso do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), com objetivo de mostrar a rejeição à proposta.

“O compromisso com o presidente Davi Alcolumbre é levar ao plenário hoje. Foi isso que ele combinou comigo. Uma matéria dessa precisa ser levada ao plenário. Somos 81 senadores e todos querem se manifestar”, disse Otto, após a CCJ votar pela rejeição do texto.

O senador afirmou acreditar que haverá unanimidade contra o projeto. Otto disse ainda que toda PEC deve ser pautada em plenário, mesmo quando há unanimidade na CCJ, o que vai contra um entendimento que uma derrota unânime no colegiado dispensa a análise de todos os 81 senadores.

“Ela tem que ser apreciada no plenário. Quando é lei ordinária ou complementar pode ser encerrada aí (na comissão), mas PEC não. É decisivo levar ao plenário”, afirmou.

Em seu voto, Vieira disse que a PEC é inconstitucional. O relator considerou que o texto contém desvio de finalidade por não atender ao interesse público e estabelecer normas que culminariam na impunidade de políticos eleitos por eventuais crimes.

“A PEC que formalmente aponta ser um instrumento de defesa do Parlamento é na verdade um golpe fatal na sua legitimidade, posto que configura portas abertas para a transformação do Legislativo em abrigo seguro para criminosos de todos os tipos”, justificou.

Na terça-feira da semana passada, 16, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC em dois turnos, com mais de 300 votos.

Mesmo após um revés, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), ainda trabalhou para garantir que qualquer uma das Casas do Congresso Nacional pudesse rejeitar abertura de processo criminal e até uma prisão contra um parlamentar em voto secreto.

O texto da PEC queria resgatar o recurso da licença prévia, mecanismo disposto na Constituição de 1988, posteriormente retirada após a aprovação de uma PEC em 2001, após pressão popular.

O Estadão mostrou em agosto que Câmara e Senado barraram pelo menos 224 pedidos de licença prévia feitos pelo STF para processar criminalmente congressistas até 2001, ano em que mudou a regra para dispensar a consulta ao Legislativo. Nenhum pedido da Corte avançou.

“Não à toa, aquele estado de coisas absolutamente inconstitucional exigiu a promulgação de referida emenda à Carta Maior, como medida urgente de moralização. Antes dela, repita-se, a necessidade de licença prévia das Casas funcionava, de fato, como ardil para perpetuar a impunidade de parlamentares, mediante recusas ou meros ‘engavetamentos’ dos pedidos feitos pela Justiça”, disse Vieira.

Senadores da oposição trabalharam para readequar o texto da PEC para que o recurso da licença prévia se limitasse para “crimes contra a honra”. O esforço acabou frustrado pelo relator, que rejeitou a proposta e pela própria convicção dos parlamentares de que o debate “já foi contaminado”.

“Ficou aqui claro que o debate nessa PEC já está contaminado. Não há condições de discutir com serenidade esse tema da imunidade parlamentar material nesse projeto”, disse o senador Sérgio Moro (União-PR).

“O relator não acolheu, não vou insistir na PEC, mas rogo a esta Casa que possamos discutir esse tema com a devida liberdade em outro momento.”

O senador Jorge Seif (PL-SC) chegou a apresentar um voto em separado, mas recuou da ideia após também entender que o debate estava “contaminado”.

A senadora Eliziane Gama (PSD-MA) rebateu. “Não tem remédio para essa PEC”, disse. “Não adianta uma emenda, um penduricalho. O que precisamos é sepultar de vez (a proposta) e tentar retomar o mínimo de confiança no Congresso brasileiro.

Líder do governo no Congresso Nacional, Randolfe Rodrigues (PT-AP), saudou o relatório de Vieira, especialmente ao fato do relator ter apontado a inconstitucionalidade da PEC. “Apontando a inconstitucionalidade da matéria, impede qualquer artifício que possa fazer levar essa proposta ser recorrida ao plenário do Senado Federal”, afirmou.

A aprovação da PEC na Câmara teve ampla rejeição popular. No último domingo, 21, brasileiros foram às ruas protestar contra a proposição. Segundo o Monitor do Debate Público da Universidade de São Paulo (USP), 42,4 mil pessoas compareceram à Paulista neste domingo. No ato bolsonarista pró-anistia foram 42,2 mil.

Partido que apoiaram PEC da Câmara mudaram rumo na votação do Senado

Partidos que apoiaram massivamente a PEC da Blindagem na Câmara mudaram o rumo e deram 14 votos contra a proposta durante a votação da CCJ do Senado.

A conta considera os votos de quatro partidos:

  • MDB: 5 votos;
  • PL: 4;
  • União Brasil: 2;
  • PP: 2;
  • Republicanos: 1.

Durante o primeiro turno na Câmara, o PL deu 83 votos para aprová-la. Em seguida, vieram União Brasil (53), PP (46), Republicanos (42) e MDB (35).

Também votaram contra o projeto na comissão quatro senadores do PSD e quatro do PT. PSDB, Novo, PSB e Podemos deram, cada, um voto contra.

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