Uma festa tradicional que deveria reunir cavaleiros, comitivas e moradores de Três Lagoas, terceira cidade mais populosa de Mato Grosso do Sul, acabou se transformando no centro de uma disputa entre dois antigos aliados políticos. O prefeito Cassiano Maia (PP) e o ex-prefeito e deputado estadual eleito Ângelo Guerreiro (PSDB) protagonizaram uma troca pública de acusações envolvendo a organização da 19ª Cavalgada de Arapuá, realizada no último fim de semana, nos dias 17 e 18 de outubro.
O episódio marcou uma nova etapa no rompimento entre os dois, que já acumulavam desentendimentos desde as eleições municipais de 2024.
Desta vez, porém, Cassiano decidiu responder diretamente ao antigo aliado e publicou um vídeo nas redes sociais, no sábado (17), no qual contestou as críticas de Guerreiro e expôs divergências que, até então, evitava abordar publicamente com a mesma intensidade.
O estopim foi a contratação do Sindicato Rural de Três Lagoas para organizar a cavalgada, tradicional celebração realizada no distrito de Arapuá.
Guerreiro questionou a mudança na condução do evento, anteriormente organizado por uma associação ligada à história da festividade, além dos recursos públicos destinados à realização da festa.
A resposta de Cassiano ultrapassou o assunto da cavalgada. Em uma gravação de mais de dez minutos, o prefeito defendeu o procedimento adotado pela administração municipal, contestou a postura do antecessor e apresentou sua versão sobre o desgaste político que afastou os dois antigos aliados.
Cavalgada vira motivo de disputa pública
A polêmica começou após Ângelo Guerreiro divulgar um vídeo em que criticou a decisão da Prefeitura de transferir a organização da festa para o Sindicato Rural.
O ex-prefeito lembrou que idealizou a cavalgada em 2005 e que, posteriormente, a Associação Ferradura passou a participar da realização do evento. Segundo ele, a entidade foi afastada da organização com a mudança de administração.
Guerreiro afirmou que o Sindicato Rural é uma instituição respeitada, mas questionou a experiência da entidade na realização da festividade.
"Ela não é dona, como a prefeitura também não é dona", declarou o deputado eleito ao tratar da cavalgada.
Apesar das críticas, Guerreiro incentivou a população a comparecer à celebração, mesmo sem sua participação à frente da organização.
Horas depois, Cassiano publicou um vídeo em resposta. O prefeito afirmou que o Sindicato Rural venceu um procedimento público e que outras entidades interessadas, incluindo a Associação Ferradura, poderiam ter participado da seleção.
Cassiano também acusou Guerreiro de tentar conservar influência sobre a festividade e de utilizar o evento como instrumento de promoção política pessoal. As afirmações representam a versão do atual prefeito e não comprovam, por si, qualquer irregularidade praticada pelo antecessor.
Durante a gravação, o prefeito ainda questionou as condições de higiene na preparação de alimentos durante edições anteriores da festa, mas não apresentou documentos que demonstrassem as supostas falhas.
Rompimento começou após eleição de 2024
Apesar da discussão recente sobre a cavalgada, a relação entre Cassiano Maia e Ângelo Guerreiro já estava desgastada havia aproximadamente dois anos.
Guerreiro governou Três Lagoas por dois mandatos consecutivos, entre 2017 e 2024, e teve Cassiano como integrante de sua equipe administrativa. O atual prefeito passou por secretarias importantes, como Saúde e Finanças, antes de ser escolhido como sucessor político.
Com o apoio de Guerreiro, Cassiano venceu a eleição municipal de 2024 com 68,61% dos votos válidos. A parceria, entretanto, começou a apresentar sinais de desgaste ainda durante a campanha.
No vídeo divulgado no sábado, Cassiano afirmou que uma das primeiras divergências ocorreu após assumir o compromisso de estudar a redução da jornada diária dos servidores municipais de oito para seis horas.
Segundo ele, Guerreiro não concordou com a possibilidade e passou a se afastar da candidatura. O atual prefeito também relembrou que seu antecessor não compareceu às cerimônias de diplomação e posse.
O afastamento chegou a ser interrompido em outubro de 2025, quando os dois participaram de uma reunião de reconciliação na Câmara Municipal, articulada com a participação de lideranças políticas estaduais. A reaproximação, porém, não se sustentou.
Acusações de traição agravaram crise nas eleições de 2026
As divergências voltaram a ganhar força durante a campanha eleitoral deste ano. Em setembro, durante um comício, Ângelo Guerreiro acusou publicamente Cassiano de traição política.
O ex-prefeito afirmou que havia ajudado a construir a trajetória do sucessor e reclamou da falta de apoio em sua candidatura à Assembleia Legislativa.
"Mas, após três dias da eleição, o primeiro a ser apunhalado e traído fui eu", afirmou Guerreiro durante o discurso.
A declaração ocorreu depois de Cassiano se aproximar politicamente do ex-deputado estadual Eduardo Rocha (PSDB), adversário de Guerreiro na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Os dois concorreram pelo mesmo partido, mas o apoio do prefeito ficou com Rocha. Apesar disso, Guerreiro saiu vitorioso das urnas em 4 de outubro, conquistando 37.704 votos, dos quais 27.004 foram registrados em Três Lagoas.
Naquele momento, a acusação de traição feita pelo ex-prefeito já havia tornado pública a ruptura. A novidade no episódio da cavalgada foi a reação direta de Cassiano, que passou a contestar abertamente o antigo aliado nas redes sociais.
Prefeito também questiona problemas da gestão anterior
Além da divergência sobre a festa, Cassiano utilizou a gravação para criticar situações administrativas que, segundo ele, foram herdadas do governo de Guerreiro.
O prefeito mencionou problemas de iluminação pública, manutenção de áreas verdes e instalação de aparelhos de ar-condicionado em escolas municipais sem a adequação necessária da rede elétrica.
Cassiano afirmou que sua administração vem trabalhando para solucionar essas questões, por meio de intervenções nas unidades escolares e modernização da iluminação pública.
Ao rebater o antecessor, também contestou a ideia de que sua eleição representaria a continuidade de um comando político exercido por Guerreiro.
"Você não aceita e não ajuda as pessoas que te sucedem", afirmou Cassiano durante o vídeo.
As críticas sobre a gestão anterior não foram acompanhadas, na manifestação, de documentação suficiente para verificar individualmente todas as situações apontadas.
Festa reuniu mais de 8 mil pessoas
Enquanto a disputa política ganhava repercussão, a 19ª Cavalgada de Arapuá aconteceu normalmente.
Segundo balanço divulgado pela Prefeitura de Três Lagoas na segunda-feira (19), o evento reuniu mais de 8 mil pessoas durante os dois dias de programação e contou com a participação de mais de 300 cavalos.
A festa teve apresentações musicais, cavalgada, churrasco e atividades tradicionais. Cassiano também participou do percurso acompanhado de familiares.
Prefeitura Três Lagoas
O encerramento da celebração, entretanto, não colocou fim à divergência política. O episódio reforçou o afastamento entre dois nomes que estiveram no mesmo grupo durante anos e hoje ocupam posições distintas na política de Três Lagoas.
Com Guerreiro eleito para retornar à Assembleia Legislativa em 2027 e Cassiano à frente da Prefeitura, a disputa também passa a envolver a relação institucional entre o município e seu futuro representante no Legislativo estadual.
O que dizem Cassiano Maia e Ângelo Guerreiro
O Correio do Estado procurou o prefeito de Três Lagoas, Cassiano Maia, e o ex-prefeito e deputado estadual eleito Ângelo Guerreiro para obter esclarecimentos sobre a troca pública de críticas, as divergências envolvendo a Cavalgada de Arapuá e o rompimento político entre os antigos aliados.
Até a publicação desta reportagem, não houve retorno de nenhum dos dois. O espaço permanece aberto para manifestações.



