Uma das frases mais circuladas nas redes sociais e em rodas de debate é frequentemente atribuída ao escritor Ariano Suassuna: "O fanatismo e a inteligência nunca moram na mesma casa." Pesquisadores e especialistas em sua obra, porém, apontam que não há registro documental ou fonte oficial que comprove que a frase saiu da pena do dramaturgo paraibano, apesar da forte atribuição.
Tenha ou não sido escrita por Suassuna, a reflexão aborda o funcionamento da mente humana e o comportamento social. Ela contrasta dois modos de estar no mundo: um fechado em convicções intransigentes e outro aberto ao questionamento e à revisão.
Certeza absoluta versus o direito de duvidar
O fanatismo se constrói sobre dogmas que não admitem contestação, seja na política, na religião, no esporte ou na interpretação científica. Quem o abraça se recusa não apenas a ouvir argumentos contrários, mas também a reconhecer legitimidade em visões diferentes das suas. Nesse universo, a realidade se divide entre o certo e o errado, sem nuances.
A inteligência, por sua vez, se apoia na curiosidade, na capacidade de formular perguntas, na humildade diante do que não se sabe e na disposição para o diálogo. Ela prospera quando a pessoa se permite mudar de ideia diante de novas evidências ou de argumentos bem construídos e aceita que sua compreensão pode ser incompleta ou equivocada.
Consequências práticas dessa incompatibilidade
Enquanto a inteligência busca compreender a complexidade do mundo e aproxima pessoas por meio do debate honesto e da troca de perspectivas, o fanatismo faz o caminho inverso. Simplifica tudo em categorias rígidas, afasta quem pensa diferente e transforma a intolerância em norma de convivência.
Uma pessoa pode ter capacidade intelectual — formação acadêmica. Leitura vasta e capacidade de argumentação — e ainda assim sucumbir ao fanatismo quando escolhe sacrificar a reflexão crítica em favor da lealdade a uma crença, a um grupo ou a uma ideologia. Nesses casos, a inteligência se torna ferramenta da convicção fanática, não seu antídoto.
Quando o dogmatismo é inevitável e correto
Nem todo dogmatismo prejudica o pensamento. Em áreas como a lógica e a matemática, existem princípios tão sólidos quanto a própria racionalidade que não podem ser questionados sem que se cometa um erro metodológico. Os resultados matemáticos são exatos, e é impossível que sejam contestados — a menos que quem os conduza tenha operado de forma incorreta.
Nesses campos, a posição dogmática não é uma escolha pessoal, mas algo inevitável e apropriado. O problema surge quando o dogmatismo entra na esfera dos costumes, da moral e da política. Nesses domínios, não há a mesma rigidez nem a exatidão da matemática, porque eles resultam de interações humanas e do acaso.
Ao aplicar a questões sociais e comportamentais a mesma intransigência das ciências exatas, o fanatismo encontra espaço para causar dano e isolar as pessoas.