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Governo no caminho da Vale

Governo no caminho da Vale

Redação

08/08/2009 - 18h20
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        Da redação

        Nas raras vezes em que aceita falar dele mesmo, Roger Agnelli costuma puxar do fundo do baú um conselho do pai. "Ele sempre dizia: Peça a Nossa Senhora, mas não corra atrás para ver só o que acontece." O presidente da Vale diz ser devoto sincero de Nossa Senhora, para quem reza todo dia. Imagens da Virgem Maria estão à vista no escritório, nos apartamentos no Rio e em São Paulo, onde mora, e na casa de praia em Angra dos Reis. No plano espiritual, portanto, tudo em ordem com Agnelli. Correr atrás é que vem sendo um problema.
        Poucos executivos souberam aproveitar tão bem quanto ele a fase de prosperidade da economia global. Entre 2001, quando ele assumiu o comando da Vale, e 2008, a produção de minério de ferro dobrou, o lucro líquido médio anual subiu de US$ 994 milhões para US$ 5 bilhões e a Vale pulou do quinto para o segundo lugar no ranking mundial das mineradoras.
        Agora, Agnelli precisa mostrar ao mercado que tem habilidade para tocar a companhia também nas condições adversas da crise econômica. Com uma dificuldade a mais: lidar com os interesses políticos que envolvem a empresa. Privatizada em 1997, ela continua ligada ao governo por meio do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), dois dos principais acionistas da mineradora.
        A Vale é uma mineradora, mas vem sofrendo pressão do governo para investir em siderurgia. Embora grupos genuínos do setor, como Usiminas e CSN, tenham adiado seus projetos em razão da crise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou da Vale, em público, a construção de usinas siderúrgicas no Espírito Santo e no Pará. Na semana passada, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disse que o governo está preocupado com os projetos siderúrgicos da Vale. Aço, na Vale, virou assunto de governo.
        "É o calendário eleitoral chegando", diz o cientista político Fernando Abrúcio. "Nessas horas, empresas que dependem do governo sempre sofrem pressão. No caso da Vale, mais ainda, porque, indiretamente, o governo também é seu sócio".
        Até por isso, o presidente Lula sente-se à vontade para criticar a direção da mineradora. Ele já repreendeu a Vale por demitir funcionários, fechar minas deficitárias, comprar empresas no exterior e reduzir de US$ 14 bilhões para US$ 9 bilhões o plano de investimentos deste ano.
        "Apesar das críticas, Agnelli fez o que todo executivo na posição dele faria", afirma Marcelo Aguiar, analista de investimentos do Banco Goldman Sachs para a América latina. "Como ele tem acionistas ligados ao governo, está em posição sempre delicada. Está gerindo a Vale como empresa privada, mas, para fora, o discurso dele pode ser mais político."
        No caso das siderúrgicas, de acordo com pessoas que acompanham o assunto, Lula prometeu a políticos aliados estimular a construção de siderúrgicas, principalmente em Estados do Nordeste, e pediu a Agnelli para tomar conta da tarefa. O executivo, interessado em atrair clientes estrangeiros, uma maneira de fidelizá-los, conseguiu parceiros na Ásia.
        
        TROCA DE COMANDO
        A siderúrgica sul-coreana DongKuk Steel será sócia da mineradora numa usina a ser instalada no Ceará, avaliada em US$ 1 bilhão. A Baosteel, da China, ia se associar à Vale numa usina no Maranhão, depois transferida para o Espírito Santo. Com a crise, os chineses mudaram de plano e sumiram. A Vale ficou sem parceiro para as siderúrgicas do Espírito Santo e do Pará.
        Há duas semanas, diante da falta de interesse de outras empresas, a Vale anunciou uma mudança nos planos siderúrgicos. Em vez de procurar um parceiro, vai bancar o começo dos projetos sozinha, para só depois sair à procura de sócios. Antes disso, a mineradora já tinha anunciado um investimento adicional de US$ 1,3 bilhão na Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) para ajudar o grupo alemão ThyssenKrupp a terminar a obra em construção no Rio de Janeiro.
        "Atrair as siderúrgicas para fomentar a demanda por minério é positivo, mas não faz sentido a Vale virar uma siderúrgica", afirma Rodolfo De Angelis, analista do Banco JPMorgan. Para Felipe Reis, analista de mineração do Banco Santander, a estratégia tem um limite. "Ficaria muito caro tocar todas essas obras só para agradar ao governo. Não acredito que a diretoria da Vale vá fazer algo assim."
        A situação da siderúrgica anunciada para o Pará pode ser uma pista do comportamento de Agnelli. Segundo uma pessoa que acompanhou encontros entre Lula e Agnelli, o presidente pediu que o executivo fizesse um esforço para concretizar o sonho da governadora Ana Júlia. Os estudos da Vale mostraram que o Pará não é o melhor lugar para o empreendimento.
        "Ele (Agnelli) encomendou o projeto, mas disse que a usina só se tornará viável se o governo construir um porto e uma hidrovia para atender à usina. A siderúrgica sai do papel se o governo cuidar disso", diz a fonte.
        Na semana passada, surgiram rumores de que setores do governo estariam tentando trocar Agnelli por outro executivo mais sensível aos apelos do governo. Bradesco, BNDES e Previ, os acionistas que controlam a mineradora, não quiseram se pronunciar. A Assessoria de Imprensa de Agnelli disse que ele estava viajando a trabalho e não tinha tempo para comentar boatos. (informações da Agência Estado)
        
        

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