Da redação
O comércio mundial reagiu à crise e voltou a crescer nos principais mercados. A retomada foi puxada pela China e ganhou fôlego no terceiro trimestre, depois que os países desenvolvidos começaram a sair da recessão. Mas ainda persistem riscos. O principal deles é o recrudescimento do protecionismo.
Depois de ceder quase 40% em fevereiro, seu pior patamar, o comércio internacional avançou 7% em agosto, revelam dados do instituto de pesquisa CBP Monitor, organizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os porcentuais correspondem ao acumulado dos três meses anteriores, anualizados.
"O período mais crítico da atual crise financeira parece ter ficado no retrovisor", disse o gerente da área de pesquisa e acompanhamento econômico do BNDES, Gilberto Rodrigues Borça Junior. "O fundo do poço para o comércio mundial já passou", concorda o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges.
O motor da recuperação das trocas internacionais é, sem dúvida, a Ásia, particularmente a China. No trimestre encerrado em agosto, o comércio dos países asiáticos subia 9,4%. O robusto desempenho da economia chinesa favoreceu os demais países da região, absorvendo suas exportações. O Japão, por exemplo, registrou uma recuperação de seu comércio externo de 47% em agosto.
Mas o impacto da China não ficou restrito à Ásia. O canal de contaminação positivo foi o incremento da demanda chinesa por commodities em plena crise, por causa do pacote fiscal de US$ 586 bilhões que o governo local implementou, com foco na infraestrutura. "A China foi um fator determinante para o comércio. Os recursos gastos significaram mais demanda por minério de ferro, cobre e outros produtos", disse o economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Maurício Moreira Mesquita.
A América Latina, com destaque para o Brasil, foi uma das regiões mais beneficiadas. Graças ao apetite chinês, o comércio internacional dos países latino-americanos subiu 3,2% no trimestre terminado em agosto - a primeira alta do ano nessa base de comparação. Em março, as trocas da América Latina com o mundo caíam 37,5%.
De acordo com Borges, da LCA, o comércio global começou a dar sinais de reação em maio, mas só ganhou ímpeto a partir do terceiro trimestre, quando as economias dos Estados Unidos e dos principais países da Europa voltaram a crescer de forma sincronizada.
Apesar do clima de otimismo, as trocas entre os países ainda estão longe de voltar à normalidade. O patamar atual é 15,4% inferior ao de setembro de 2008, anterior à turbulência. O ritmo do comércio está mais fraco que a produção industrial global, que subiu 14,7% em agosto e está apenas 4,8% abaixo de setembro do ano passado.
Em 2009, o comércio global terá sua maior queda desde a Grande Depressão na década de 30. Alguns estudiosos acreditam que o recuo pode ter sido até mais significativo que naquela época. A Organização Mundial de Comércio (OMC) prevê retração de 10% do comércio mundial este ano, enquanto a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é mais pessimista e estima queda de 16%.
O comércio foi a principal vítima da crise e sofreu mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) ou a produção industrial do planeta. Dados elaborados pelo BNDES mostram que, na década de 60, uma queda de 1% na renda global significava 1,94% menos de comércio. Hoje a relação é 1% a menos de renda, 3,7% menos de comércio. (informações da Agência Estado)