Da redação
O início da retirada dos estímulos financeiros à economia dos EUA, especialmente junto aos bancos, com a alta modesta da taxa de redesconto de 0,50% para 0,75% adotada pelo Fed, tende a pressionar o câmbio no Brasil para uma tendência de leve depreciação até o final do ano, avaliou o professor da PUC-RJ, José Márcio Camargo. Segundo ele, a melhora gradual do nível de atividade norte-americano e a elevada demanda de capitais para compensar os déficits fiscais dos EUA, Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e Itália devem reduzir um pouco o fluxo de recursos para os mercados emergentes nos próximos trimestres.
"Além de tudo isso, outro fator desfavorável para a cotação do real ante o dólar é que o déficit de contas correntes do País deve atingir perto de 2,5% do PIB neste ano, o equivalente a um montante entre US$ 50 bilhões e US$ 60 bilhões", comentou.
Mesmo com o maior interesse dos investidores internacionais em elevar suas aplicações em Fed Funds e títulos do Tesouro de países europeus que precisarão reduzir com vigor os déficits orçamentários, próximos a 10% do PIB, Camargo avalia que o câmbio no Brasil deve atingir R$ 2,00 em dezembro e a cotação média do ano deve oscilar entre R$ 1,80 e R$ 1,85, marcas não muito distantes do patamar de R$ 1,82 registrado hoje.
Mas como o câmbio não deve se valorizar no curto prazo e o ritmo de expansão da demanda agregada é elevada, o que possibilita um crescimento do Brasil de 5,5% neste ano, Camargo pondera que esses elementos devem motivar o Banco Central a adotar um aperto monetário neste ano de três pontos porcentuais. Para ele, o mais provável é que o incremento da Selic, que está em 8,75%, comece em abril e a ação restritiva do Copom pode ser iniciada em 17 de março, quando será encerrada a reunião do próximo mês do comitê
Embora a taxa real de juros ex-ante no Brasil, que está em 5,75%, seja bem mais atraente do que as marcas negativas registradas pelos EUA, zona do euro, Reino Unido e Japão, Camargo pondera que o começo da retirada dos estímulos monetários pelo Fed deve aumentar o apetite de investidores por títulos do Tesouro norte-americano. A avaliação de agentes econômicos nos EUA é de que o país começa a se expandir, mesmo que devagar, e isso levou o Federal Reserve a iniciar um aumento da taxa de redesconto dos Fed Funds. Segundo Camargo, historicamente o custo do redesconto para os bancos comerciais é um ponto porcentual superior à taxa básica de juros. Hoje esta diferença varia entre 0,50 e 0,75 ponto porcentual. Outro fator que está reforçando a aposta de instituições financeiras em títulos norte-americanos é a crise fiscal de países europeus, que deve diminuir a expansão da zona do euro e enfraquecer a moeda daquela região em relação ao dólar em 2010.
Camargo ressalta que a melhora do humor dos investidores em relação aos EUA também está relacionada com a evolução antes do esperado da economia norte-americana, que registrou expansão de 5,7% no quarto trimestre do ano passado em termos anualizados. Esta marca ficou acima dos 4,8% esperados por analistas consultados pela Dow Jones. O fim dos estoques elevados das empresas e o aumento da produção das fábricas estão impulsionando novamente o nível de atividade do país.
Porém, Camargo estima que a retomada deve desacelerar em breve, pois o nível de desemprego de 10% mina a confiança do cidadãos para ampliar o consumo, elemento responsável por 65% da evolução do PIB norte-americano. Para o primeiro trimestre, ressalta o acadêmico, é esperado um incremento menor, de 3,5% em termos anualizados. O orçamento do governo Barack Obama espera uma alta do PIB de 2,7% para 2010, com a taxa de pessoas desocupadas estável em 10%.
"O aumento da liquidez nos EUA para condições extraordinárias foi o principal fator que colaborou para a melhora do País", comentou o professor. "Contudo, devido à incipiente evolução da economia, é muito pouco provável que o Fed vá elevar a taxa básica de juros antes do último trimestre deste ano." (do Estadão)