Cidades

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80 km/h

80 km/h

Redação

15/03/2010 - 04h10
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O Brasil é um país onde a hipocrisia grassa de forma aguda e imponderada. Deve ser um dos poucos lugares do mundo no qual o ladrão exige ser tomado por homem honesto e paga para ser visto dessa forma pela sociedade. Ele quer ser respeitado pela mesma comunidade onde sua nocividade causa estragos inimagináveis, irreparáveis. É um país no qual os que se desprezam se tratam bem, bebem da mesma cerveja, convivem nas mesmas festas e trocam gentilezas e nunca, por nada, arredam o pé desse modo de ser. É proibitivo falar a verdade. O Brasil carrega um dos tipos de preconceitos raciais mais perversos que existem: o velado. Na mesma linha do chope com o inimigo, o racismo aqui é levado no estilo bossa nova, na base do dia de sol, festa de luz. Minorias são execradas dia a dia sob o manto da hipocrisia, em conversas entre amigos da mesma linha ideológica, entre colegas de trabalho ou até em piadas que são levadas a público pela televisão. Quando surge o desigual todos se calam, sorriem e o tratam bem. Cresci vendo o comediante Renato Aragão, o Didi, dos Trapalhões, distribuindo preconceitos contra homossexuais, nas vítimas de Zacarias e Dedé, e contra negros, na pele, literalmente, do Mussum, Antônio Carlos Bernardes Gomes, a quem também Didi rotulava de cachaceiro. Era normal na tevê esse tipo de humilhação, como também eram normais as cenas de violência entre gatos e ratos e a falta de caráter do pica-pau, a ave cínica do desenho animado que só lhe importava levar vantagem. No caleidoscópio interminável do fingimento nacional surge ainda a figura do homem que é eleito para representar e cuidar do bem público no interesse de todos e que escorrega, tomba, chafurda e afoga na lama da corrupção. Mas de todas as hipocrisias deste país, talvez o limite de velocidade em rodovias federais, fixado em 80 km/h, seja um dos mais gritantes. A verdade, essa que nem dá mais as caras por vergonha de si mesma, é que quase ninguém viaja tendo como parâmetro os 80 km/h. Até quem usa tacógrafo geralmente dá um jeito de adulterar o aparelho. E o limite legal dos 80 km/h é defendido há anos nas rodovias, desde a ditadura militar, em nome da segurança nas estradas. Rodovias que, em muitos casos, nem sequer merecem este nome, por falta de acostamento, manutenção, sinalização vertical ou horizontal e, principalmente, fiscalização. Em certas estradas com pedágio, por exemplo, o limite de velocidade chega a 120 km/h na Castello Branco e 110 km/h na Marechal Rondon, ambas no Estado de São Paulo. Estradas duplicadas e que podem ser, por isso, chamadas de rodovias. Isso leva à ilação de que o limite baixo de velocidade é para compensar a ausência do poder público de fazer corretamente a manutenção do trecho. Entre tantos assuntos que merecem uma reflexão séria, que vai da dengue, do sistema prisional ao respeito ao sinal vermelho, será que não chegou o momento de repensar não apenas o limite de velocidade nas estradas como também de melhorá-las definitivamente e, principalmente, como educar melhor o condutor?

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