Cidades

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Da individualidade

Da individualidade

Redação

23/03/2010 - 08h06
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Está cada vez mais difícil julgarmos o que pode e o que não pode entrar em nossas vidas. A quantidade de informação disponível sobre qualquer assunto, o ritmo acelerado de nossas rotinas e a nebulosa relação entre o que é público e o que é privado, fazem com que fiquemos dispersos e acabemos negligenciando nossa privacidade, que é um bem imaterial e deveria ser mais bem preservado. O turbilhão da vida moderna, que envolve a todos de maneira totalmente invasiva, acabou eliminando, sem que percebêssemos, a privacidade de cada um. Basta ver o que acontece com a televisão, por exemplo. Há um condicionamento em nosso comportamento, e por força do hábito, quando ligamos o aparelho, automaticamente subordinamos todos os nossos atos a obedecerem ao horário do jornal, da novela, do programa, relevando, muitas vezes, qualquer prioridade nossa. Há, hoje em dia, tendência a uma exposição pública que implica renúncia a esse privilégio maravilhoso da privacidade. Todos querem ser celebridade. A fama virou virtude. E isso representa prejuízo ou benefício? Prejuízo, porque resulta exatamente na privação da individualidade. E é por meio da individualidade que o ser humano pode crescer de forma verdadeira. É na individualidade que se manifesta a originalidade de cada um. Busca-se uma forma de identificação com o que está acontecendo, com a moda, sem que se perceba a tremenda inversão de valores que ocorre, para que cada ato seja pautado pela forma de agir do momento, da influência presente. E no caso do casal, quando a intimidade se converte em promiscuidade, com invasão permanente do outro? É preciso dar muita atenção para esse comportamento. O casal, naturalmente, tem uma intimidade que não pode e não deve descambar para a promiscuidade, sob pena de comprometer, muitas vezes, a continuidade da relação conjugal, porque acaba se transformando em falta de respeito. Isso acontece, por exemplo, com o uso do banheiro: cada um tem o direito inviolável de usar o banheiro de forma individual, de sentir-se sozinho, de emitir seus próprios sons, de olhar-se no espelho sem cuidar que alguém poderá estar olhando, criticando ou espionando. Na medida em que a individualidade prevalecer, se anula o coletivo, e se fortalece o eu. Quem se expõe acaba se fragilizando. Dentro deste raciocínio, chegamos à religião, que sempre se manifestou como um ato coletivo, influenciando e envolvendo as pessoas sem que estas percebam que estão sendo manipuladas. O ato da oração é um momento necessariamente individual; para falar verdadeira e sinceramente com Deus, para abrir o nosso coração, sem sofismas, sem reservas mentais, é indispensável à privacidade, o isolamento, pois, caso contrário, estaremos recitando fórmulas e rituais que se repetem ao longo dos tempos, sem que nos detenhamos a analisar verdadeiramente o que estamos dizendo e fazendo, e, o que é pior, enganando-nos. Pois entendo que quanto mais intimidade tivermos com Deus, melhor será para cada um, porque “nos finalmente”, quando chegar a hora, a questão será no mano a mano, sem intermediários, sem advogados, sem santos protetores, sem intercessores. Olho no olho. Daí, por ser um ato necessariamente individual, decorre outro entendimento que diz respeito à fidelidade. Eu não posso ser fiel à minha mulher, ao meu trabalho, à minha religião, ao meu país: eu só posso ser fiel a mim mesmo. Se eu entender isso e agir assim, serei natural e conscientemente fiel a tudo. Sem exigências, sem cobranças, sem condenação. E porque se assim não for, estarei causando a mim mesmo uma situação de falsidade, pois os meus atos serão pautados pelo interesse ou pela subserviência, pela negociação e cometendo um pecado contra mim, fruto da ignorância, que no dizer de Sócrates, e meu também, é o único pecado que existe. Os demais decorrem deste. Falta ao ser humano a dimensão da eternidade, a clara percepção de que somos eternos e como somos eternos, temos o infinito pela frente. Dimensão esta que não pode nos levar ao outro extremo, como acontece, por exemplo, com o povo hindu que tem essa percepção, e que ironicamente acabou por causar a esse povo milenar uma posição de comodismo, tornando- o totalmente indolente, passivo, a deixar a coisa andar, pois ele sabe que terá inúmeras encarnações e oportunidades para promover o seu resgate e sua evolução. O que não deixa de ser um contra-senso e um ato de lesa encarnação. São as reflexões que deixo para exame dos amigos leitores.

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