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Os dois lados do governo lula

Os dois lados do governo lula

Redação

30/03/2010 - 22h54
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No governo Lula o discurso dominante quer convencer a população, na sua maioria formada pelos trabalhadores, da necessidade de uma aliança com a burguesia. Trabalhadores e patrões do mesmo lado.  Nas falas dos líderes, numa reprodução do pensamento de Lula, isto é uma constante: os trabalhadores e a burguesia andam de mãos dadas. Não aceitam opiniões opostas.

Não cabe nesta situação, o pensamento em outra forma de ver e atuar. Uma forma independente das classes dominantes, no horizonte dos trabalhadores. Nem um projeto socialista; tampouco a bandeira da emancipação dos trabalhadores pelos próprios trabalhadores. O governo Lula causou um estrago na possibilidade de elaboração na consciência do povo brasileiro dos estratos trabalhadores de um projeto político. Praticamente, e teoricamente, este é um efeito de largo alcance.

Uma cara operária, um conteúdo burguês, de aderência de corpo inteiro ao capitalismo, tornou isto possível. O governo Lula é um bicho esquisito. Tem a cara dos trabalhadores, a mente e o coração do capitalismo, formando uma monstruosidade extravagante.
Os dois lados desta moeda não são cara e coroa.

O peso eleitoral do governo corresponde ao seu peso político. A subida nas pesquisas da candidata do governo explica-se nesta correspondência. Os dois candidatos ocupantes dos primeiros lugares nas preferências do eleitorado disputam a subida e a descida nas pesquisas.
Na hipótese de não acontecer alguma crise no período das disputas eleitorais, o quadro dificilmente vai mudar. As pesquisas apontam numa direção confirmadora da análise aqui desenvolvida.

O apoio majoritário de Lula entre os trabalhadores é decorrência da cara do governo. O caráter político do governo encontra a sua expressão eleitoral. Dilma é a coroa desta cara na constituição da moeda.

No entanto, na vida do governo petista nem tudo são flores. O tempo escorre. Uma equação econômica em dois termos se impõe. A cara do governo e a situação econômica constituem o binômio. Uma mudança em qualquer dos dois termos muda todas as relações neles implicadas.
O exame do primeiro termo mostra uma coisa muito clara: Dilma não é Lula. Recebe o apoio de Lula, mas não é Lula.
No segundo termo, não se pode esquecer de que o crescimento econômico brasileiro, atualmente, é parte de uma situação internacional instável. Alguns analistas dizem tratar-se da maior crise desde 1929. Uma crise temporária,  e artificialmente, controlada. Pode retornar com força ainda maior. Na Europa, já começou a mostrar a sua cara.

Vista em perspectiva, num horizonte próximo, não é um absurdo a previsão de uma grave crise econômica enfrentada por um governo sem Lula. Um desenho assim colhe os seus traços nas realidades imediatas e próximas.
Isso dá ainda mais importância a uma participação eleitoral que retome com clareza a perspectiva da classe trabalhadora brasileira. O estrago feito na consciência do povo trabalhador vai se colocar frente a exigências de respostas mais avançadas. O processo eleitoral vai exibir os seus limites no equacionamento das questões políticas de base, as que realmente contam.

As eleições de outubro transformam-se num espaço fundamental da luta de classes. O cenário se configura. A burguesia efetivamente terá em Lula, Serra e seus satélites, como Ciro e Marina, a garantia do convencimento eleitoral dos trabalhadores, na elaboração prática e teórica das políticas que interessam a ela, enquanto classe.
As propostas para o país, mantendo e aprofundando as mazelas do povo trabalhador ganharão um grande poder de convencimento. Os nomes apontados atuarão com as características individuais marcantes de todos eles, na garantia do mesmo campo político. Caras diferentes, corpos iguais, politicamente.

Cabe outra vertente: participar e impulsionar as lutas e o processo de reorganização dos trabalhadores. Tarefa muito importante da esquerda socialista a clamar pela sua realização. Apresentar, nas eleições, alternativas de classe e socialista.
Isto implica, em primeiro lugar, fazer o balanço crítico do governo Lula. Entender a natureza de suas propostas e práticas. Localizá-las no espectro político a que pertence, a rigor, fora da esquerda.
Implica ainda, combater as alternativas da direita.
Apresentar aos trabalhadores, a toda a sociedade, um programa socialista para o Brasil. Mostrar uma saída para a crise econômica em contraposição às exibidas pelos capitalistas.
A forma de a esquerda socialista realizar essa tarefa, no processo eleitoral, é através de uma candidatura, abertamente classista e socialista. O Brasil precisa de uma política elaborada com critérios de classe: das classes trabalhadoras. O povo trabalhador precisa de uma orientação política com cara, mente e coração, o corpo inteiro, do seu lado.
Oposição ao governo Lula, não se faz nos marcos da burguesia: isto é derrota certa. Derrota eleitoral e derrota política. Politicamente, o governo Lula só pode ser derrotado na organização do povo trabalhador em alternativa às perspectivas da burguesia.

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