Se a degradante situação de grande parcela dos indígenas não é mais, ou talvez nunca tenha sido, motivo de vergonha no Estado, o desaforamento do júri popular dos quatro acusados de terem assassinado, em 2003, em Juti, o cacique Marcos Veron, que era conhecido por denunciar a miséria indígena em todo o País e principalmente na Europa, deveria ser. Porém, até agora absolutamente nenhuma autoridade fez alguma manifestação neste sentido e muito menos algum cidadão comum. Então, está aí a prova mais contundente de que o preconceito com relação a estas comunidades é dos mais fortes possíveis e de que o Ministério Público Federal estava certo ao requerer a transferência do julgamento para fora do Estado.
Os procuradores não aceitaram nem mesmo que o julgamento fosse realizado em Campo Grande, pois temiam que este preconceito pudesse comprometer a imparcialidade dos jurados. Quer dizer, não desconfiam somente da imparcialidade das autoridades, mas da população como um todo, já que os jurados são escolhidos quase que aleatoriamente entre os moradores de uma cidade, o que é extremamente grave, pois mais de 500 anos depois da "descoberta", um sem-número de brasileiros ainda vê os indígenas como àquela época. De quem é a culpa desse preconceito? Principalmente daqueles que insistem em manter as comunidades como se estivessem séculos atrasados em relação aos demais brasileiros, daqueles que creditam que o melhor para estas famílias é que continuem vivendo como selvagens. Japoneses, alemães, libaneses, sírios, italianos e tantos outros povos mantêm sua língua e costumes e vivem em perfeita harmonia com os "demais brasileiros".
O júri, previsto para começar ontem em São Paulo, acabou sendo adiado para maio. O fato de ter sido desaforado não significa que os acusados sejam culpados ou que venham a ser condenados. Porém, o mínimo que se espera é que tanto indigenistas quanto autoridades federais, estaduais e municipais revejam (ou adotem) políticas públicas para acabar com esta degradante e vergonhosa situação.
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