O pedido de socorro da professora está longe de ser um SOS isolado. Pesquisa feita pelo Sindicado Campo-Grandense dos Profissionais da Educação Pública (ACP) e divulgada em março deste ano revela que 18,6% dos professores da Capital já foram vítimas de agressão no trabalho. Se computados somente os dados das escolas municipais, este percentual aumenta para 23,5%, pois nas estaduais, que concentram o ensino médio, o índice é menor, 13,7%. E, conforme o mesmo levantamento, baixos salários, falta de condições de trabalho e problemas de saúde geram insatisfação generalizada dos docentes. Em decorrência disso, mais da metade dos educadores está insatisfeita com a profissão e se tivessem oportunidade, 50,6% fariam concurso para trocar de ocupação. Quer dizer, o desabafo da educadora sintetiza aquilo que a grande maioria pensa e enfrenta nas superlotadas salas de aula, conforme evidencia a pesquisa.
Para as autoridades, porém, educação resume-se a construir escolas, comprar merenda, uniformes, kits escolares e demais "investimentos" que possam render assinatura de contratos milionários e, aquilo que todos sabem, os dividendos com essas assinaturas. É evidente que um prefeito ou governador não tenham condições de, em quatro ou oito anos de administração, dar novo rumo à educação. Porém, enquanto os governantes continuarem usando recursos do Fundeb, que constitucionalmente deveriam ser destinados somente à educação, para outros fins e apresentarem justificativas descabidas, dificilmente algo mudará, pois isto mostra que o ensino não faz parte das prioridades.
Mas, não se pode esperar que mudanças para melhor sejam somente de responsabilidade das autoridades do Executivo. Ministério Público e Judiciário têm papel importante, pois cabe a estes corrigir determinadas distorções na interpretação da legislação e deixar claro que o respeito aos direitos de crianças e adolescentes não pode simplesmente atropelar a dignidade de educadores e de demais trabalhadores do setor. Enquanto os profissionais da educação não tiverem um mínimo de respaldo para mostrar limites às crianças e adolescentes (já que muitos pais perderam os parâmetros e não têm mais rumo definido), a tendência é que somente aumente o número daqueles que gostariam de trocar de função. E, em meio a uma sociedade na qual os poderes constituídos perderam praticamente toda a credibilidade, se as escolas despencarem nesta vala comum, pouca esperança restará ao País.
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