Cidades
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Eliza e a violência contra a mulher
Eliza e a violência contra a mulher
Eliza seguiu o mesmo caminho que muitas jovens, atraídas pela fama e a independência. Os julgamentos de valor não demoraram a aparecer nas discussões, seja em sites, fóruns, conversas de amigos ou no trabalho. Termos pejorativos como “maria-chuteira”, “golpe-da-barriga”, e especulações sobre o passado da jovem tentam disseminar o paradigma machista e covarde que sistematicamente fere e assassina meninas e mulheres, buscando justificar o injustificável: a vítima torna-se ré.
Se Eliza era estudante, modelo, garota de programa, atriz de filme adulto, nada disso interessa para a Justiça brasileira. É ela - ainda que tardiamente - que dará voz a esta mulher que já não pode se defender. Grávida, Eliza disse ter sido sequestrada, agredida e forçada por Bruno a abortar em um país onde, salvo os casos previstos em lei, o aborto ainda é considerado uma prática criminosa. Alguma responsabilização para Bruno? Infelizmente não. Solidário, Bruno defendeu publicamente o colega de time Adriano que agrediu a noiva com a velha expressão: “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, e completou: “quem nunca saiu na mão com uma mulher?”. Os que não são covardes, poderíamos pensar.
Eliza lutou pelo direito de ser mãe e pagou com a vida. Não fosse o suposto pai da criança quem é, o caso poderia ter passado despercebido e sem a repercussão de agora, como tantos outros que acontecem todos os dias com as mulheres no mundo. É compreensível que a garota, tendo aparecido na mídia na ocasião da gravidez do filho de um ídolo de um dos maiores clubes do Brasil, gravado entrevista ao Jornal Extra sobre o caso –amplamente divulgado na internet- e feito boletim de ocorrência na delegacia da Mulher do Rio de Janeiro por conta das agressões e ameaças que sofreu de Bruno, o caso ganhasse a proporção que alcançou.
Eliza é, infelizmente, mais um número nas estatísticas de violência contra as mulheres.
Se o ano de 2009 foi marcado por casos de violência contra a criança, 2010 tem sido o ano da violência contra a mulher - e ainda estamos no mês de julho. O País mostrou-se comovido e indignado com os casos como o do menino João Hélio, arrastado até a morte por ladrões; a menina Isabela, atirada da janela do apartamento do Edifício London; a jovem Eloá, morta covardemente pelo namorado após um cárcere interminável; a pequenina Raquel, encontrada morta em uma mala em Curitiba.
Com relação às mulheres, no início do ano o ex-jogador de futebol Jancken Ferraz esfaqueou e matou Ana Cláudia e sequestrou o filho em São Paulo; no Rio de Janeiro, uma briga de casal terminou com Jackeline Valadão morta ao ser atirada da varanda do prédio pelo marido; em Minas Gerais, a cabeleireira Maria Islaine foi morta a tiros em frente às câmeras de segurança de seu salão pelo ex-companheiro; recentemente a advogada Mércia Nakashima foi brutalmente assassinada e atirada na lagoa, cujo principal suspeito do crime é seu ex-noivo; e agora em Campo Grande, acompanhamos perplexos a triste e revoltante história da arquiteta Eliane Nogueira que foi terrivelmente assassinada e o principal suspeito é seu marido.
O que presenciamos pode ser chamado de barbárie? A palavra “bárbaro” tem origem grega βάρβαρος significa “não grego” e era como estes designavam os estrangeiros ou aqueles povos cuja língua materna não era a deles. A grosso modo, aquele que não era “civilizado” segundo o pensamento eurocentrista da época. Atualmente, o termo ‘barbárie’ significa ou caracteriza qualquer ato criminoso cujos requintes de perversidade, covardia e injustiça ultrapassam qualquer limite de entendimento ou civilidade, utilizando-se da força, violência, do poder, da crueldade e/ou premeditação. O caso de Eliza Samudio é no mínimo, estarrecedor e assombroso pelos terríveis desdobramentos que a polícia revela com o andamento das investigações. Sequestro, espancamento, morte e ocultação do corpo. E Bruno, impassível segue dizendo nada saber –com todas as provas apontando o contrário- e preocupado com os rumos de sua carreira profissional?
Vivenciamos diuturnamente os meios de comunicação registrarem casos de violência contra mulher, assassinatos, estupros e a barbárie - se é que assim podemos chamar – e a violência contra a mulher tem ganhado cada vez mais visibilidade. Segundo dados do estudo sobre a Violência no Brasil 2010, realizado pelo Instituto Zangari, em 10 anos cerca de dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil. Entre 1997 e 2007, 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio, em sua maioria por motivações “passionais”. Só para se ter uma ideia do número de vítimas, basta imaginar que atualmente o Morenão tem capacidade para 44.350 expectadores. É 12 vezes o número de mortos nos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos.
Medidas como a criação da Secretaria Especial de Política para as Mulheres tem desenvolvido ações no território brasileiro de enfrentamento a esta situação: o Pacto Nacional de Enfrentamento da Violência Contra a Mulher; o Disque-180 e a implementação de uma dos mais avançados instrumentos de defesa das mulheres, a Lei 11.340/2006, conhecida como a Lei Maria da Penha, prevê o aumento no rigor das punições de agressões contra mulheres ocorridas no âmbito doméstico ou familiar e a criação de redes de atendimento capacitadas para atender e registrar os casos de violência contra a mulher, com vistas ao aprimoramento das políticas públicas e defesa dos direitos das mulheres. O tema tem ganhado destaque nas ruas, movimentos sociais, no governo e na legislação, mas estes instrumentos sem uma mudança contundente do posicionamento da sociedade não se sustentam sozinhos. Precisamos nos posicionar contra os abusos cometidos às meninas e mulheres.
Não esqueçamos que em meio a estes acontecimentos, Bruninho, filho de Eliza completa quatro meses de idade. De acordo com a Associação Brasileira de Pediatria, com esta idade o bebê além de necessitar de cuidados médicos como consultas, vacinas, o leite materno ainda é seu único e exclusivo alimento e ele agora começa a brincar, segurar objetos e sorrir. Onde estará Eliza?
Precisamos demonstrar nossa indignação para que Mércias, Jackelines, Anas, Elianes, Eloás e Marias tenham direito à vida e não sejam mais motivos de preces silenciosas, cartazes de justiça, velas acesas, um país de cidadãos e cidadãs indignados e de órfãos da covardia.
Danieli Souza Bezerra, Cientista Social
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