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Inédito "Mister Lonely" sai em DVD
Inédito "Mister Lonely" sai em DVD
Primeiro, é preciso ver “Mister Lonely” não como um filme convencional, mas um experimento. Como nem sempre o que se faz num laboratório dá certo, por vezes ele falha, mas invariavelmente deixa as marcas de ousadia do realizador por trás do projeto. No caso, trata-se do cineasta californiano Harmony Korine, de 37 anos, mais conhecido como diretor dos clipes da cantora Cat Power e roteirista dos filmes de Larry Clark (“Kids” e “Ken Park”).
Considerado a “salvação” do cinema americano pelo realizador alemão Werner Herzog (que faz o papel de um padre em “Mister Lonely”), Korine é um criador de fábulas, como Tim Burton, capaz de atrair para seus projetos outros grandes nomes dados à experimentação, como o do cineasta francês Leo Carax, que também aparece em seu filme, realizado há dois anos, inédito nos cinemas brasileiros e lançado em DVD pelo selo Magnus Opus.
“Mister Lonely” abre com a canção homônima de Bobby Vinton tocando ao fundo enquanto um imitador de Michael Jackson, também de máscara cirúrgica, dá voltas numa minimoto com um macaco de brinquedo pendurado às costas. A imagem é perturbadora e anuncia o circo alegórico de Korine, um pós-felliniano fixado na estética pop dos anos 1960 – época também da canção de Vinton. Boa escolha. Sua música fala de um soldado solitário que quer ter alguém só para ele, mas não recebe nem mesmo uma carta. Foi esquecido e quer saber onde falhou.
No filme, essa mensagem musical é traduzida num comentário em “off”: “Não sei se você sabe o que é querer ser outra pessoa, parecer com outro, odiar o próprio rosto, querer ser incomum, achar, enfim, um propósito para sua existência”. É tudo o que o filme pretende discutir ao contar a insólita história de uma comunidade de imitadores de celebridades, de Michael Jackson (Diego Luna) a Madonna (Melita Morgan), passando por Marilyn Monroe (Samantha Morton), a rainha da Inglaterra (Anita Pallenberg) e o Papa (James Fox). Em tempo: a produção já fez escola. Estreia em breve o filme Elvis e Madonna, do brasileiro Marcelo Lafitte.
Tudo começa quando o ersatz de Michael Jackson encontra a imitadora de Marilyn Monroe num asilo de simpáticos velhinhos. Casada com o simulacro de Charlie Chaplin, ela o convida para se juntar à comunidade numa ilha escocesa, formando uma trupe insólita como a do circo de Tod Browning no clássico “Freaks”. A citação não é gratuita. Korine trata essas celebridades como seres deformados, obrigados a colar no rosto a persona que interpretam nos palcos e nas telas.
Para reforçar a alegoria, ele usa Herzog como o padre que comanda uma trupe de freiras, encarregadas de distribuir alimentos nas selvas latinas, todas voadoras depois que uma delas cai sem paraquedas e chega ilesa ao chão. No fundo, parece dizer o bizarro filme de Korine, tudo não passa de representação, seja a mágica dos astros ou os milagres da Igreja A verdadeira condição é a do solitário à espera de alguém que justifique sua existência terrena.
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