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Como em 7 anos o crack mudou uma metrópole

Como em 7 anos o crack mudou uma metrópole

Redação

27/08/2010 - 09h15
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                Estudo inédito realizado em Belo Horizonte revela detalhes da disseminação da droga numa grande cidade. E mostra como o tráfico se ramifica, os conflitos aumentam e os homicídios explodem

                 

                Era o ano de 1995 quando a família Peixoto, composta por alguns dos mais notórios traficantes da Pedreira Prado Lopes, tradicional favela de Belo Horizonte, começou a comercializar o crack na cidade. A droga já havia se estabelecido em São Paulo no começo dos anos 1990. Na capital mineira, assim como ocorreu entre os paulistas, a nova mercadoria iniciou um processo de rápidas transformações na estrutura do comércio de droga. Era a primeira fase da venda do crack, marcada pela descentralização da rede de traficantes, disputas fatais, ciclos de vingança, traições e retaliações a consumidores. Sete anos depois, parte da cidade havia sido devastada pela violência.

                As transformações no universo criminal de Belo Horizonte ocorridas com a chegada do crack e os diferentes estágios do comércio da droga foram reconstituídos por uma equipe de nove pesquisadores e os resultados divulgados ontem na capital mineira. "Fizemos um estudo de caso em Minas, mas as conclusões servem para identificar os efeitos da chegada do crack que são comuns às grandes cidades brasileiras", diz o sociólogo Luis Flavio Sapori, do Centro de Pesquisas em Segurança da PUC de Minas, que coordenou a pesquisa.

                Antes da droga chegar, entre os anos de1991 e 1995, quando o tráfico vendia maconha e cocaína, a taxa média de homicídios entre jovens de 15 a 24 anos em Belo Horizonte era de 51,2 por 100 mil habitantes. Durante o período mais violento, entre 2001 e 2005, os números na mesma faixa etária tinham saltado para 216,7 por 100 mil.

                Se a porta de entrada foi o bairro de Pedreira, a violência só se disseminou na cidade quando outras favelas, como Morro das Pedras, Cabana do Pai Tomás e Cafezal, passaram a vender o crack. Em Pedreira havia um mandachuva que dominava o morro, sem a pressão de concorrentes, chamado Roni Peixoto. A violência no bairro degringolou depois de sua prisão, no começo de 2000. Quatro facções passaram a disputar os pontos. Nas demais favelas, onde o tráfico era menos estruturado e a competição, acirrada, o mata-mata já fugia do controle. E avançava na franjas da metrópole.

                Capitalismo louco. Fenômeno conhecido em outros mercados, os criminólogos americanos chamam essa fase inicial e truculenta do comércio de crack de "o capitalismo que ficou louco". Muitos dos traficantes que entram em cena vendem o crack para sustentar o vício. "Essa descentralização do comércio provoca um grande desequilíbrio no mercado e contribui para aumentar a violência", explica o sociólogo Eduardo Paes-Machado, da Universidade Federal da Bahia.

                Paes-Machado discorda, no entanto, que o crack possa ser apontado como a causa principal do crescimento dos homicídios. "Em Salvador, onde os assassinatos dispararam nos últimos anos, existem propagandas oficiais que atribuem ao crack 80% dos assassinatos. Isso é divulgado sem base nenhuma e simplifica a discussão. O problema envolve elementos como grande quantidade de armas de fogo na rua, polícia violenta, além de aspectos culturais que não podem ser menosprezados."

                Em São Paulo, por exemplo, a primeira capital brasileira a enfrentar a epidemia de crack, no começo dos anos 1990, a curva de homicídios já vinha crescendo em velocidade acelerada pelo menos dez anos antes. O crack veio aumentar o drama.

                "O crescimento dos assassinatos é multicausal. Se o crack chegasse a uma cidade sem armas, com uma polícia eficiente, não haveria espaço para esse aumento da violência", pondera o diretor do Instituto Sou da Paz, Denis Mizne.

                Principal achado. No estudo que ajuda a narrar a passagem do crack por Belo Horizonte, o coordenador da pesquisa afirma que o principal achado está relacionado à dinâmica da queda dos assassinatos, verificada a partir de 2004. Nessa época de pacificação, Sapori era adjunto da Secretaria de Defesa Social do governo de Minas e coordenava o programa Fica Vivo. O trabalho começava em comunidades com índices altos de violência, levando a polícia para "uma repressão qualificada". Averiguava-se o nome dos principais assassinos locais, que eram presos. Junto a essa iniciativa, entravam oficinas e projetos culturais. "Essas políticas provocaram perdas nos lucros dos traficantes e o que se verificou foi a autorregulação entre as próprias lideranças do tráfico", diz Sapori.

                Segundo o pesquisador, políticas públicas levam o comércio de crack a uma nova fase. Lideranças mais fortes diminuem a letalidade, de olho nos lucros. Isso explicaria porque cidades como Belo Horizonte e São Paulo têm registrado neste ano índices de assassinatos mais baixos que os verificados no passado, apesar de o consumo de crack estar em alta nas duas capitais.

                 

                (Informações do Estadão)

                
 

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