“Sou apaixonada pelo Pantanal e estou completamente arrasada”. Esse é o diagnóstico feito por Margi Moss, integrante do projeto Brasil das Águas, que avalia a qualidade dos recursos hídricos brasileiros. Dada a autoridade de quem sobrevoa as águas brasileiras há duas décadas, a preocupação deve ser, no mínimo, levada em consideração.
Margi e seu marido, Gérard, estiveram no Pantanal pela primeira vez há mais de 20 anos e a visita mais recente aconteceu em 2009; tempo suficiente para observar tristes mudanças no cenário de uma das maiores reservas mundiais da biosfera. “Sobrevoando o local eu percebo o intenso desmatamento, fator que influencia diretamente nas águas; a vegetação ajuda a segurar a umidade do solo, sem ela o clima muda e a evaporação fica mais rápida”, explica.
Também integrante do projeto e sumidade no assunto, o professor Dr. José Galizia Tundisi aponta a causa do declínio da qualidade das águas nas bacias hidrográficas do Centro-Oeste, especialmente do Pantanal: atividades agropecuárias. Segundo Margi, o que antes era vegetação nativa, hoje constitui grandes pastos, lavouras de soja ou fornos de carvão.
A Embrapa Pantanal estuda a Bacia do Alto Paraguai (BAP) há pelo menos 10 anos. Segundo a bióloga e Dra. em Ecologia, Márcia de Oliveira, a grande ameaça às águas do Pantanal é a agricultura na parte alta, nas bordas. “A chuva trata de espalhar os defensivos e já foi possível constatar a existência de 22 tipos de pesticida nas águas superficiais e nos sedimentos em toda a extensão do Pantanal”, alerta.
Esses pesticidas, apesar de degradarem-se rapidamente, liberam toxinas durante o processo de degradação. Segundo a Dra. Márcia, rios de grande porte, como o Paraguai, ainda conseguem chegar no “meio” do Pantanal relativamente limpos, pois o curso d’água filtra grande parte das impurezas.
As maiores ameaças
Em artigo divulgado pela Embrapa Pantanal, a pesquisadora e Dra. em Ciências, Débora Fernandes Calheiros, reitera que é justamente o mau uso do solo que causa a perda da qualidade e da quantidade de água nos rios da região.
Especialmente nas três últimas décadas, houve aumento nos processos erosivos e no aporte de carga orgânica e de poluentes tóxicos. A possibilidade de aumento de áreas de cultivo de cana-de-açúcar na BAP, os desmatamentos irregulares para a produção de carvão na bacia do Rio Miranda e o aumento da implantação de monoculturas para reflorestamento a fim de suprir de carvão as siderúrgicas de MG e MS aumentam o rol de ameaças.
O barramento dos rios para a geração de energia e a possível retomada do projeto da hidrovia
Paraguai-Paraná são os principais pontos que podem alterar a manutenção do pulso de inundação na planície, fator que rege o funcionamento ecológico do Pantanal. Sem falar na implantação de pólos industriais potencialmente poluidores (siderurgia e gás-químico) em Corumbá.
Até mesmo a introdução de espécies exóticas no Pantanal, como os peixes amazônicos tucunaré e tambaqui, tem alto poder de alterar as relações ecológicas na cadeia alimentar aquática.
Trocando em miúdos
Tudo isso significa uma coisa: degradação ambiental. E claro, com conseqüências sociais e econômicas negativas.
A Embrapa Pantanal possui projetos de monitoramento e de estudos de caso sobre níveis de degradação ambiental nos rios do Pantanal. “A proposta é embasar cientificamente a gestão dos recursos solo e água da bacia, promovendo a gestão realmente integrada, participativa e co-responsável”, consta no artigo.
Margi Moss é categórica: “vocês de Mato Grosso do Sul tem que lutar a todo custo para salvar o Pantanal”. O recado está dado.
Projeto Brasil das Águas - entre outubro de 2003 e dezembro de 2004, o aviador Gérard Moss, junto com a esposa Margi, coletaram 1.160 amostras de água doce de rios e lagos de todo o Brasil utilizando um avião anfíbio. Os resultados das análises dessas amostras ajudaram a desenhar um abrangente panorama da qualidade das águas do país para fins de alerta e conscientização.
Pesquisa e cidadania formam a base do projeto. Apoiado por instituições de ensino, pesquisa e grupos comprometidos com as questões ambientais brasileiras, o avião anfíbio Talha-mar, transformado em laboratório aéreo, voou 120.000 km - o equivalente a mais de duas voltas em torno da Terra – para coletar amostras em todas as regiões hidrográficas do país. O laboratório interno foi totalmente desenhado e montado pela própria equipe Brasil das Águas, com tecnologia 100% brasileira.
Utilizando a mesma metodologia em todo o país, a comparação dos resultados ajuda a entender a situação atual dos recursos hídricos e contribuir para um extenso banco de dados sobre um dos maiores bens do nosso povo: a água.
Fonte: www.brasildasaguas.com.br
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