Lulu, Chicão, Baiano e Paigê, estão morando ao lado da Santa Casa, na Rua 13 de Maio, há cerca de 1 ano. Segundo os quatro amigos, eles se conheceram perto da antiga rodoviária, na Capital, e agora moram com Mel e Taysson, seus dois cachorros, que ficam amarrados nas correntes, presas às grades do hospital.
Lulu conta que pegou Mel das ruas ainda bebê. “Ela é o meu xodó, se chove ela é a primeira coisa que pego para não se molhar”, declara. Eles vivem de doações de pessoas que passam por ali deixando comida e do dinheiro que juntam cuidando dos carros na rua. Lulu tem brinquedos que usa para decorar a calçada. "É o mundo dos sonhos dela", diz Baiano
“Muitas pessoas passam por aqui e nem olham na nossa cara, com medo de serem assaltadas. Nós trabalhamos para comer, beber pinga e comprar nossas drogas, não precisamos assaltar ninguém”, revela a única mulher do grupo.
Chicão conta, enquanto bebe cachaça em uma garrafa de plástico, que mora nas ruas há dois anos. “Minha vontade mesmo era morar com a minha mãe, mas meus irmãos não me aceitam, sempre morei com meu pai. Quando ele faleceu venderam a casa e eu vim parar na rua”, diz.
Baiano revela que veio de Salvador para trabalhar em uma fazenda no interior mas que o emprego não deu certo. “Vim parar em Campo Grande e não tenho dinheiro para voltar para Bahia. Eu sou igual a carro: gosto de ficar na rua. Eu tomo pinga, uso maconha, sou vida louca”, ele frisa. Paigê, vindo do Paraguai, estava dormindo durante a entrevista.
Eles afirmam que se tivessem uma oportunidade de verdade, sairiam das ruas. “Na época de campanha política vinham nos pedir votos. Eles sempre querem levar a gente para o Cetremi (Centro de Triagem e Apoio ao Migrante) mas não adianta nada. Lá eles querem que a gente trabalhe para conseguir, depois de dois meses, passagem para ir para o interior, pra continuar morando na rua? Eu não quero morar em uma rua do interior, eu quero um trabalho, uma casa”, diz Lulu.
“Se me dessem uma oportunidade, eu saia da rua. Não quero ir pra Cetremi, não adianta ir para lá. Quero voltar para o meu Estado”, afirma Baiano.
A assessoria da prefeitura foi procurada para falar sobre o Cetremi e disse que, porque o órgão está passando por modificações e reestruturações, não tem como dizer como o local funciona atualmente.