Depois de quase uma década combatendo corpo a corpo os caçadores de jacarés no Pantanal de Corumbá, à frente da Polícia Florestal que ajudou a criar nos anos 80, o mineiro de Belo Horizonte Ângelo Pachelli Cipriano Rabelo chegou a uma conclusão: a guerrilha na planície não teria fim se não fosse a nova postura ambiental que o país incorporou, com leis mais rigorosas, e o engajamento da sociedade organizada.
O enfrentamento desigual aos contrabandistas de peles – brasileiros, bolivianos e paraguaios -, que tinham melhor armamento e conhecimento da região, e a falta de legislação para colocar os líderes na cadeia, levaram aquele jovem e destemido tenente a refletir quanto a infrutífera troca de tiros e operações à exaustão para proteger o meio ambiente. Ele enxergou o caminho inverso: a educação ambiental.
Ao receber o Prêmio Ford de Conservação Ambiental 2010, no último dia 7, o coronel reformado da PM de Mato Grosso do Sul Ângelo Rabelo, 50, sentiu-se duplamente gratificado. A honraria concedida pela Fundação Ford às pessoas que dedicam a vida às iniciativas em defesa da natureza reconheceu um trabalho de 20 anos, sem farda e tiros, na articulação de uma rede de proteção aos biomas brasileiros.
Um ecologista
Ao cessar a caça ao jacaré, um dos símbolos da biodiversidade pantaneira, no final dos anos 80, o policial florestal estava determinado e desarmado, mergulhando-se nos livros sobre legislação e ecologia em busca de uma atuação mais inteligente da corporação que envolvesse a sociedade na construção de uma nova consciência ambiental. Nascia, ali, um ecologista a liderar ações conservacionistas, sem abandonar as raízes militares.
“Literalmente um ‘combatente’ pela natureza, o coronel Rabelo teve uma carreira militar inteira de luta pela natureza no Pantanal. No mundo civil, não fez por menos, coordena importantes ações em campo, notadamente para a conservação de amplas áreas de terras privadas, que muito têm contribuído, e seguirão contribuindo, para o sistema nacional de unidades de conservação”, afirma o ambientalista paranaense Miguel Milano.
Rede de proteção
Ao deixar o comando da Polícia Florestal – hoje Polícia Militar Ambiental -, Rabelo assumiu a diretoria de educação ambiental da secretaria estadual de Meio Ambiente. Foi consultor do Banco Mundial e da Sodepan (Sociedade de Defesa do Pantanal) e gerente de atividade de fiscalização do Programa Nacional de Meio Ambiente Pantanal. Ganhou vários prêmios no Brasil, Europa e Estados Unidos. Em 1996, entrou para a reserva.
Ao retornar a Corumbá, foi secretário municipal de Meio Ambiente e criou a Ong Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que hoje coordena o curso de capacitação de policiais ambientais de todo o Brasil, capitaneado por ele desde 1994. Atuando em varias frentes, Rabelo projeta o Museu do Homem Pantaneiro, em um casarão centenário do porto da cidade, e atualmente assessora o senador corumbaense Delcídio do Amaral (PT).
Mais diálogo
Dentre seus feitos, destaca-se também a articulação de uma rede compartilhada para proteção e monitoramento da Serra do Amolar, no coração do Pantanal, unindo segundo e terceiro setores na conservação de um corredor ecológico de 272 mil hectares. Fruto de sua idéia de criar uma plataforma do diálogo, que reuniu na mesma mesa ONGs, empresários e governo para discutir o desenvolvimento sustentável.
“Não é o ideal, mas o possível. E pode virar um modelo para avaliar e prevenir eventuais estragos ao meio ambiente de qualquer pólo de desenvolvimento. Se a proposta deixar o chão e ajudar a conservar o Pantanal, o país vai ter muito o que agradecer a um oficial aposentado da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, o coronel Ângelo Rabelo”, escreveu o jornalista Manoel Francisco de Brito, do site O Eco.
Pró-ativo
Ângelo Rabelo ganhou a patente de tenente-coronel, no final dos anos 90, por ato de heroísmo, reconhecido pelo Estado. Na boca da noite do dia 3 de dezembro de 1983, ele foi gravemente ferido no ombro durante combate contra 14 coureiros no Pantanal do Nabileque, fronteira com o Paraguai. Seu “piloteiro”, o fiscal ambiental Valfrido Queiróz, tombou com um tiro na testa. O balanço do barco o teria salvo.
Depois de uma dezena de cirurgias e seqüelas que não o impediram de se superar nos testes de aptidão física para cursos de promoção, enquanto muitos o encorajavam a abandonar a farda, o ex-combatente entendeu que o confronto armado não tinha sentido. De lá para cá, tornou-se em lobista verde. Nesta entrevista, Rabelo cobra maior participação do empresariado na construção de um mundo com mais qualidade de vida.