A ocupação irregular das encostas situadas em depressões do solo no centro de Corumbá e na morraria é antiga, mas a solução para retirar 509 famílias de áreas de risco somente agora está sendo tomada — e a médio prazo —, enquanto a chegada das chuvas agrava a situação e deixa a Defesa Civil em alerta. A invasão das áreas foi incentivada com a omissão da prefeitura e a instalação de redes de água, energia e telefone.
Ontem, em caráter emergencial, a prefeitura antecipou a remoção da empregada doméstica Joselina Ramona Dias da Silva, 56, para o novo conjunto habitacional Ana de Fátima Brites, no Bairro Guató, construído com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Ela morava em um casa abaixo de uma encosta e ao lado de um córrego, na Alameda Hawaí, e o risco de desabamento era iminente.
Parte da casa de Joselina há havia desmoronado, mas ela seria contemplada somente na terceira etapa do projeto habitacional do PAC, que reassentará as famílias que vivem nas encostas, prevista para o final do ano. A intensidade das chuvas, desde o dia 10, totalizando mais de 120 milímetros, no entanto, obrigou a Defesa Civil a condenar o imóvel, onde a senhora morava sozinha com seus cães e gatos.
"Quando dava uma ventania a casa tremia toda", contou Joselina, se preparando para a mudança. "O desmoronamento é inevitável, real. A casa não tem mais estrutura, há rachaduras nas paredes e o solo está afundando", avaliou o gerente da Defesa Civil, tenente Isaque Nascimento.
Deficiências
Assim como a casa de Joselina, onde ela morou por 12 anos, dezenas de outros imóveis estão em situação semelhante. O drama se espalha pelos bairros Cervejaria, Generoso, Tiradentes e Beira Rio e nos morros do Cruzeiro, Formiga e Bandeira, além das alamedas Vulcano e no Hawaí. Ainda não ocorreu uma catástrofe porque o solo da cidade é rochoso, no entanto há sinais de degradação das encostas.
Além do risco de deslocamento de pedras e deslizamento das encostas que margeiam o Rio Paraguai, ameaçando inclusive o Casario do Porto tombado pelo patrimônio histórico nacional, Corumbá conta com um precário sistema de escoamento de águas pluviais, cuja rede hoje é usada também como esgoto e deságua no rio. Em 1992, a cidade foi inundada e ficou isolada devido a um temporal, que matou dez pessoas.
Resistência
Desde 2009 a cidade recebe investimentos do PAC em obras de drenagem, esgotamento sanitário e habitação e desenvolve projeto de reurbanização da área portuária estimado em R$ 35 milhões, após a desocupação da área. A primeira medida, segundo o secretário de Infraestrutura, Ricardo Ametla, será uma obra de contenção das encostas com a construção de cortinas de concreto, ao custo de R$ 700 mil.
A maior dificuldade, contudo, é convencer os moradores a deixar o local. Técnicos da área social do PAC que mapearam a região afirmam que a maioria das famílias não quer ser transferida para a parte alta, que fica distante 4 km do centro. São pescadores e preferem continuar morando próximo ao rio. Das 335 famílias que vivem na Cervejaria, um dos pontos mais críticos, apenas 129 aderiram ao reassentamento.