São 4,8km de extensão – um número que parece pequeno comparado ao tamanho da história de uma rua tão importante para os campograndenses. Hoje os edifícios históricos quase não respiram em meio a propagandas, fios e a chamativa confusão dos carros, mas um tempinho a mais de observação e estão ali os resquícios de 100 anos de história da Rua 14 de Julho.
Casal Amélia e José Okama, do 'Bar do Zé', há 59 anos na esquina com a 14
A rua foi tema de livros de história, arquitetura, sociologia e até tese de pós graduação em geografia. Mas o que é importante mesmo em cada centímetro da querida 14 são as memórias eternizadas por pessoas que tem um carinho especial pela rua. Filho de Campo Grande, José Yassuke Okama, 73 anos, é o Zé do 'Bar do Zé', na Rua Barão do Rio Branco. Ele acompanhou várias fases da 14. “No domingo tinha o footing, que começava na Afonso Pena e ia até a Dom Aquino. Das 18h até às 21h os moços e as moças ficavam andando para arranjar namorado. Isso existiu até 1965, depois chegou a televisão e dissolveu porque o pessoal ficava em casa assistindo televisão”, conta Zé.
Compare o mesmo local em 1936 e em 2011 (foto: Álvaro Rezende)
Mais do que a Avenida Afonso Pena, a 14 concentra e sempre concentrou as principais lojas populares da cidade e antigamente era o local das confecções mais finas e tinha 'pontos' étnicos, como as óticas dos japoneses e as lanchonetes árabes. “Meu pai começou com loja e depois teve o restaurante, ficou na 14 até 1979 e depois veio para a Rua 7 de Setembro. Nós tínhamos clientes fixos dos bancos e adorávamos os eventos porque enchia de gente”, conta Bibiane Michel Ibrahim, filha do proprietário da Confeitaria Árabe.
Durante nove meses a rua se chamou Anibal de Toledo e foi Rua João Pessoa por 15 anos, mas a população reivindicou o antigo e nobre nome 14 de julho, que remete à queda da Bastilha na Revolução Francesa – atrelada aos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No livro de Paulo Coelho Machado, “A Rua Principal”, uma história extraoficial conta que um campograndense chamado Godofredo Barbosa presenciou quando criança a chegada do primeiro trem na inauguração da estação Noroeste do Brasil, em 14 de Julho de 1914 e por isso a rua tem esse nome.

Entre cinemas e cinemas, ruas de paralelepípedos e asfalto, alfaiatarias e lojas de departamento, a 14 de Julho é uma rua de contrastes e transições, que já foi palco de muitos carnavais e hoje brinda um pouco de sossego com relação a eventos. Mas o que os comerciantes gostavam mesmo, era dos festejos. Para matar as saudades, a Fundação Municipal de Cultura (Fundac), realiza hoje festa em comemoração ao aniversário da rua. Será das 8h às 20h na Praça Ary Coelho, com diversas manifestações culturais e atividades gratuitas.