Consumo indiscriminado e abusivo de medicamentos tem um componente ainda mais preocupante em Mato Grosso do Sul — a facilidade do cidadão para comprar todo tipo de substância do outro lado da fronteira, aproveitando-se da dificuldade de fiscalização, porém sem haver qualquer registro que garanta a procedência e a real eficácia desse remédio. Uma mostra dessa prática está nas apreensões de remédios realizadas pela Polícia Rodoviária Federal, que aumentaram 215% neste ano em relação ao mesmo período do ano passado.
De 1º de janeiro a 10 de setembro deste ano, conforme estatísticas da PRF, foram retiradas de circulação das rodovias federais que cortam o Estado 43.688 unidades de medicamentos falsificados, contra 13.872 unidades contabilizadas no ano passado. Para as autoridades policiais e órgãos de saúde do Estado, números como esse mostram que a exemplo de entorpecentes, cigarros e outros produtos, Mato Grosso do Sul também tornou-se importante rota para o transporte de medicamentos e sua comercialização em outros Estados.
Por se tratar de um produto que faz pouco volume, os medicamentos podem ser mais facilmente camuflados no próprio corpo, em bolsas de mão e pequenas sacolas e além disso, a maioria dos compradores transporta os medicamentos em carros particulares para dificultar a fiscalização, conta Pedro Libório Filho, chefe da Delegacia da Polícia Rodoviária Federal de Dourados, região por onde passa a maioria dos produtos contrabandeados para o território sul-mato-grossense, entre eles medicamentos. "Esses medicamentos servem para abastecer o mercado local, mas a maioria daquilo que foi apreendido está sendo levado para outros Estados", analisa.
A explicação para o boom dos remédios falsificados está no baixo custo do medicamento "estrangeiro", à facilidade de adquirir o produto por causa da dispensa de receita médica e ainda o hábito da automedicação. "O aumento se deve ao custo, à exigência de receita médica — alguns medicamentos no Brasil precisam de prescrição — e tem ainda a automedicação. A pessoa não quer ir ao médico e recorre a esse tipo de produto", avalia Libório.
Variedade
Três tipos de medicamento figuram com maior frequência nas apreensões da PRF: os utilizados para tratamento da disfunção erétil, sendo o Pramil o mais comum, analgésicos (para combate à dor) e esteróides anabolizantes (para crescimento da massa muscular). Anorexígenos, que são utilizados para emagrecer e têm na sibutramina sua maior representatividade, também vêm surgindo com mais frequência nas apreensões. No entanto, os policiais rodoviários federais já chegaram a apreender neste ano substâncias que tem venda proibida no País, caso do Cytotec (utilizado como abortivo).
Como não dispõem de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), esses medicamentos não tem qualquer comprovação de que foram submetidos a estudos clínicos para avaliar os seus efeitos sobre pacientes, sua procedência não é conhecida e o consumo desses produtos pode acarretar sérios riscos à saúde, alerta a gerente de medicamentos da vigilância sanitária estadual, Vivian Ré Poppi. "O principal é que o medicamento pode não fazer o efeito desejado. Isso diminui a qualidade de vida do paciente, aumenta os custos financeiros, porque essa pessoa terá que voltar ao médico e adquirir novos medicamentos e sua doença pode ainda se agravar (durante o período em que consumiu o medicamento falsificado)", explicou.
Serviço
Em nível administrativo, a vigilância sanitária estadual atua mediante denúncias, recebidas pelo número 3312-1118 ou pelo e-mail [email protected], ou por meio de ações realizadas em parceria com a Anvisa. A agência vem regularmente a Mato Grosso do Sul para fazer operações e neste ano duas ações foram realizadas, uma em Campo Grande — resultando na autuação de uma drogaria, que comercializava medicamentos para disfunção erétil falsificados — e a outra em Dourados, onde este tipo de irregularidade não foi encontrada.
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