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Comerciante evita 'morte' da Estação Bolicho

Comerciante evita 'morte' da Estação Bolicho

Redação

12/10/2011 - 16h00
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Atenção ex-ferroviários, amantes do trem e público em geral: locomotivas maria-fumaça (caldeira a lenha), a óleo diesel e aqueles indefectíveis vagões de madeira com janelas e portas de ferro paravam todo dia no Km 43 do Ramal Campo Grande-Ponta Porã da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Aqui está, milagrosamente em pé, a Estação Bolicho, a quinta depois de Campo Grande. Esse símbolo da era ferroviária, cujo auge se deu bem antes da divisão do Estado, resiste ao tempo e ao vandalismo graças à abnegação e ao respeito à história demonstrados pelo comerciante Almir Vieira Pereira, nascido e criado na região. As demais estações foram invadidas, depredadas e depois destruídas, da mesma maneira como ocorreu com tantas outras em diferentes regiões do País.

 

"Em 1985 eu recebi o terreno em comodato; nem me lembro quantos mil cruzeiros gastei para recuperar alguma coisa", conta. Pereira instalou-se numa das casas com a família, onde pretende viver até o fim dos seus dias.

Com 65 anos, cinco filhos e 11 netos, ele conta sua frustração quando viu o desmonte da estação: "Queimaram no mato os livros de registro de trens e cargas, levaram os móveis, os arquivos, o relógio e o telégrafo." Queria cuidar pelo menos do telégrafo, pois aprendera o Código Morse.

Os bens e pertences da estação tomaram o rumo de Campo Grande e Bauru.

Pereira é proprietário de um bar e restaurante no Km 388 da MS-060. Leva o nome da estação e está no Programa Parada Legal do Sebrae. Sua sina de conservacionista empurrou-o para assumir a posse do terreno de dois hectares, no qual estão edificadas a estação, a casa da gerência, dois grandes pés de jenipapo e um velho e troncudo eucalipto nativo. Ajeitou a casa, cujas paredes invadiam a faixa de segurança.

Desativado em 1º de junho de 1996, depois de 43 anos de atividades, o ramal Campo Grande-Ponta Porã partia do Km zero, no Distrito de Indubrasil. Parava nas seguintes estações: Posto Km 903, Mário Dutra, Indubrasil, Guavira, Bolicho, Sidrolândia, Piúva, Posto Km 103, Piqui, Brilhante, Posto Km 145, Maracaju, Sete Voltas, Ministro Pestana, Itahum, Presidente Dutra, General Rondon, Santa Virgínia e Ponta Porã.

Pereira recorda o auge da Rede Ferroviária Federal na ligação de Campo Grande à fronteira Brasil-Paraguai:

O trem passava na Estação Bolicho às 10h e chegava a Ponta Porã por volta das 20h; no retorno, às 15h30, e uma hora depois chegava em Campo Grande.

"Os fazendeiros e os peões amarravam os cavalos aí nos tocos e nas árvores e vinham despachar o milho, o arroz e o feijão que eram pesados numa grande balança. Antes do embarque o gado ficava no mangueiro da antiga Fazenda da Serra", recorda. "Todo dia embarcavam umas 30 a 40 cabeças; passavam 20 vagões, alguns deles para o transporte do gado que chegava magro, mas depois de uns dias na invernada saía gordinho daqui para o frigorífico", emenda.

Tinham também outros motivos para ir à estação: buscar revistas, jornais, mercadorias diversas.

Trem levava até duzentos passageiros

A viagem entre Campo Grande e Ponta Porã demorava nove horas. Enquanto durou, de 1953 (ou 1944, nos trechos incompletos) a 1996, o trem fez a alegria de viajantes e comerciantes que escoavam ou importavam produtos procedentes do Paraguai.

 

Segundo o Ministério Público Federal, em diversas regiões brasileiras as concessionárias de antigas ferrovias não demonstram interesse em recuperá-las para o transporte de passageiros, mesmo para turismo. O ramal Campo Grande-Ponta Porã transportava até duzentos passageiros nos trezentos quilômetros do trecho. Foi o último a ser extinto no País, quando o trem circulava apenas três vezes por semana em cada sentido, transportando menos de sessenta pessoas.

 

As privatizações de empresas estatais no governo Fernando Henrique Cardoso colocaram um ponto final no sonho do transporte ferroviário.

Esse ramal fazia parte dos bens patrimoniais da Malha Oeste. O resultado desse aspecto da história é bem semelhante aos trechos Campo Grande-Corumbá, Campo Grande-Bauru (SP) e a outras ferrovias nacionais que só não desapareceram por conta de alguma sala transformada em museu ou repartição municipal.

Para as gerações de 1970 e 1980 recomenda-se saber mais a respeito da vida do Ramal Campo Grande-Ponta Porã, consultando o Google, o Arquivo Histórico, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul ou algum desses idosos que costumam guardar documentos e recortes de jornais.

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