A gente acha lindo quando vê um especialista trabalhando para a conservação de pássaros, de tartarugas, de golfinhos. E pode até achar curioso, mas não acha tão lindo assim quando vê um especialista trabalhando para a conservação de antas, por exemplo. Afinal de contas, antas são bichos esquisitos, desengonçados, que por algum motivo preconceituoso acabaram apelidando seres humanos tolos.
Ah, o preconceito. Essa infeliz característica exclusivamente humana que deforma opiniões e limita horizontes. Se deixássemos esse preconceito bobo de lado e tirássemos as antas do time de animais pouco reconhecidos, dando a elas a importância que realmente detêm no equilíbrio do ecossistema, enxergaríamos o trabalho dos especialistas em antas com o mesmo brilho no olhar que enxergamos o trabalho de quem protege lindas borboletas.
É o caso da engenheira florestal Patrícia Médici, doutora em ecologia e conservação pela Universidade de Kent, na Inglaterra. Ela se dedica há mais de 15 anos ao estudo da anta brasileira (Tapirus terrestris) e consegue, em 30 minutos de conversa, convencer qualquer mortal da importância da conservação desses bichos. Foram 12 anos de pesquisa na Mata Atlântica, que resultaram, além da paixão irredutível pela espécie, num Plano de Ação para Conservação da anta no bioma.

Depois chegou a vez do Pantanal. Patrícia está morando em Mato Grosso do Sul desde 2008 e chega a passar duas semanas por mês, durante a estação seca, na fazenda Baía das Pedras, no Pantanal da Nhecolândia. Ali ela captura e examina animais, tira medidas corporais, implanta e verifica armadilhas fotográficas, coleta urina e fezes e monitora exemplares através das coleiras com radiotransmissor, tudo isso para conhecer os hábitos e as características biológicas dos bichos.
São essas informações, entre outras, devidamente analisadas e catalogadas, que resultarão no Plano de Ação para Conservação da anta no Pantanal. A intenção de Patrícia é estender o estudo para os outros biomas, tecendo assim uma rede de recomendações para a conservação do bicho em cada canto onde ele ocorre no país.

Para isso, a doutora das antas conta com mais de 40 patrocínios, importante frisar, todos internacionais. A maioria provém de fundos de conservação de zoológicos americanos e europeus. Além disso, Patrícia já conquistou diversos prêmios como integrante da equipe científica do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Entre eles o Harry Messel Award for Conservation Leadership, outorgado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o Golden Ark na Holanda (acompanhado de um cheque de 50 mil euros), e o Whitley Award na Inglaterra (mais um cheque de 30 mil libras).
As pesquisas no Pantanal devem durar mais três anos, aproximadamente. O próximo passo planejado por Patrícia é o Cerrado, que poderá ser estudado enquanto mantém o QG em Campo Grande, cidade que conquistou um pedacinho do coração da pesquisadora.
As jardineiras da floresta
Uma das características do injustiçado animal que encantou a doutora Patrícia foi a capacidade que ele tem de manipular a biodiversidade. Trata-se de um bicho frugívoro, que come um frutinho aqui, uma sementinha acolá, e vai defecar lá do outro lado, depositando a semente, adubada, quilômetros distante de onde ela foi ingerida. São as “jardineiras da floresta”.
Outro detalhe que merece atenção é o fato do Livro Vermelho da IUCN classificar a anta brasileira como espécie vulnerável, pelo fato de existir um número insuficiente de adultos para aumentar a população para um número considerado saudável.

Isso acontece porque o ciclo reprodutivo das antas é muito longo. Um exemplar da espécie torna-se maduro sexualmente com quatro anos de idade. Depois disso ele vai encontrar um parceiro, a quem será fiel até que um dos dois morra.
A gestação de uma fêmea dura 14 meses e nasce somente um filhote, que será acompanhado pela mãe por aproximadamente 15 meses. Na natureza, vítimas de predadores, metade desses filhotes acaba não sobrevivendo. Estudos mostram ainda que uma anta vive cerca de 25 anos no habitat natural, e até 40 em cativeiro.
Ameaças
As pesquisas da doutora Patrícia na Mata Atlântica mostram que a principal ameaça enfrentada pelas antas no bioma é o desmatamento, que acabou por fragmentar pequenas populações da espécie, longe umas das outras. Em função da urbanização acentuada, elas também sofrem com a alta incidência de atropelamentos em rodovias, problema que se repete no Cerrado.
Os exemplares que habitam a planície alagada do Pantanal estão relativamente mais protegidos, por não terem que enfrentar caçadores. Mas Patrícia anda estudando a questão da transmissão de doenças infecciosas contraídas e transmitidas por animais domésticos de ribeirinhos, como cavalos, bois e cachorros.
Características
As antas são mamíferos algumas vezes confundidos com porcos, capivaras e tamanduás-bandeira. Seus parentes mais próximos são os ungulados (mamíferos que possuem casco) com número ímpar de dedos, como cavalos e rinocerontes.
Existem quatro espécies de antas: a brasileira, a da montanha (Tapirus pinchaque), a centro-americana (Tapirus bairdii) e a asiática (Tapirus indicus).
A anta brasileira possui uma crina curta e estreita ao longo de todo o pescoço, pelagem curta e áspera e orelhas com pontas brancas. Essa espécie prefere hábitats próximos a corpos d’água e é frequentemente vista nadando em rios. Para evitar predadores, como onças-pintadas e onças-pardas, as antas podem mergulhar rapidamente na água, que é um refúgio bastante seguro. Ela prefere se alimentar durante a noite, quando ingere uma grande quantidade de gramíneas, folhas, sementes, frutos e outros tipos de vegetação.
| Área onde vive | Florestas da América do Sul, do leste da Colômbia até o norte da Argentina e do Paraguai |
| Alimentação | Frutos, folhas, caules, brotos, plantas aquáticas e cascas de árvores |
| Hábitos | Locomove-se bastante na floresta, levando as sementes que comeu para germinar em outros lugares |
| Aparência | Muitas vezes é confundida com o porco. Apresenta cauda e olhos pequenos, crina sobre o pescoço, orelhas móveis, cascos de boi e pequena tromba móvel no focinho |
| Tamanho | Chega a pesar 250 quilos. O comprimento das fêmeas é de 2,2 metros e dos machos é de 2 metros. A altura é de 1,1 metro |