Partos prematuros, crianças abaixo do peso ideal, mulheres e companheiros usuários de álcool, drogas e cigarro. Jovens mães de até 12 anos de idade, com o corpo malformado e que já embalam bebês, mesmo desconhecendo noções de higiene corporal.
É o choro entre a vida e o desmazelo num cinturão de oito comunidades pobres dos bairros Colorado, Dom Antonio Barbosa, João Neumann, Lageado e Parque do Sol.
A situação ali constatada está inserida no relatório anunciado quarta-feira pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), segundo o qual, piorou o indicador entre brasileiros de 12 a 17 anos: de 2004 a 2009, o percentual de adolescentes vivendo em famílias bem pobres cresceu de 16,3% para 17,6%, o que representa 3,7 milhões de pessoas.
A coordenadora da Pastoral da Criança no Parque do Sol, Eunice Alves de Albres, 56 anos, se depara com essa realidade. Técnica em enfermagem, ela vai além das reuniões aos sábados, recebendo regularmente mães angustiadas dia e noite, em busca de socorro para os filhos febris, com vômito, dor de cabeça ou diarréia. Muitas vezes são elas próprias, desnutridas, sofridas, querendo melhorar.
Com o semblante sereno, olhar de resignação, voz calma e, sobretudo, gestos de amor com famílias que ajudou a construir, ela diz: "Faço o possível." No momento, a Pastoral arrecada enxovais de bebês, que estão sempre em falta.
A Rua Seiko Yonamine, onde mora dona Eunice, é talvez a mais conhecida do Parque do Sol. Há 20 anos ela conhece casa por casa dos bairros desse cinturão, compartilhando suas agruras e também as alegrias.
Em que pesem naturais adversidades, a Paróquia Nossa Senhora da Guia está entre as contempladas pela dádiva do sublime, ousado e persistente trabalho dessa decana Pastoral.
"Sinto-me gratificada, mas precisamos formar novos líderes", apela Eunice. Três horas depois de retornar de uma consulta médica, ela volta a cuidar da saúde dos pequenos. Quantas vezes fez isso desde 2003, quando começou a cuidar de mães desde a gestação?
Mais que a distribuição do soro caseiro, da pesagem de crianças e da distribuição da multifarinha altamente calórica fornecida pela Arquidiocese de Campo Grande, a vida ocupa o primeiro lugar entre os valores eleitos pela Pastoral. Nas reuniões mensais, a instituição orienta a todas e incentiva reflexões.
Esperando encontrar e formar novas lideranças, 11 paroquianos ministram para eles cursos com duração total de 40h. Sempre há lugar para mais uma mãezinha.
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