A alta comissária para direitos humanos das Nações Unidas, Navi Pillay, elevou para ao menos 5.000 o número de mortos pela repressão do regime do ditador Bashar al Assad aos protestos que pedem sua renúncia. Em reação, o embaixador da França na ONU, Gérard Araud, disse que a falta de consenso no Conselho de Segurança torna o órgão "moralmente responsável" por essas mortes.
"É a minha estimativa que o total de pessoas mortas desde o começo dos protestos [em março] é agora de cerca de 5.000. Esta situação é intolerável", disse Pillay.
Seu relatório aponta ainda que mais de 14 mil pessoas foram detidas e outras 12.400 tenham fugido para países vizinhos.
Ela recomendou ao Conselho de Segurança --o mais alto órgão das Nações Unidas-- que recomende que o Tribunal Penal Internacional (TPI) dê início a uma investigação dos possíveis crimes contra a humanidade no país.
Entre os 5.000 mortos estariam ao menos 300 crianças, disse a alta comissária, relembrando que em seu último pronunciamento ao conselho, em agosto, a cifra dos mortos estava em 2.000.
O embaixador francês reagiu ao discurso de Pillay julgando inconcebível a falta de uma condenação mais clara no órgão --vetada por Rússia e China em votações anteriores.
"A França e outros membros do Conselho de Segurança consideram que o silêncio é um escândalo", afirmou, acrescentando que "o Conselho de Segurança é moralmente responsável pelo que está acontecendo hoje na Síria, pelo sofrimento do povo sírio".
CONDENAÇÃO
Rússia, China, França, EUA e Reino Unido, como membros permanentes do órgão, detêm poder de veto em todas as resoluções votadas pelo Conselho que conta ainda com dez membros rotativos.
A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, disse que o relatório "ressalta a urgência do momento atual" e assim como seu colega francês, pressionou o mais alto órgão da entidade a tomar uma atitude mais contundente.
"Através de condenações emitidas pela Assembleia Geral das Nações Unidas, o Conselho de Direitos Humanos e medidas corajosas tomadas pela Liga Árabe e o governo da Turquia, organismos internacionais estão começando a entrar em acordo quanto à severa condenação à sangrenta repressão síria, com passos concretos para levá-la a um fim".
"É passada a hora de o Conselho de Segurança da ONU fazer o mesmo", afirmou.
INÉRCIA
Os representantes da França, Reino Unido, Portugal e Alemanha também pressionaram o Conselho.
"Hoje, Navi Pillay deixou os membros do Conselho de Segurança a par da escala da tragédia em curso na Síria. A História julgará fortemente aqueles que ainda preferem virar o rosto. A inércia não é mais uma opção", disse Philippe Bolopion, diretor das Nações Unidas para a ONG internacional Human Rights Watch.
O embaixador russo, Vitaly Churkin, manteve a posição de Moscou na questão. "A única maneira de resolver a situação na Síria é por meio de um processo político liderado pelos sírios, e isso significa diálogo", disse.
VIOLÊNCIA E ELEIÇÕES
A estimativa chega no mesmo dia em que a Síria realiza eleições locais, mesmo com contínuos confrontos violentos entre forças de segurança do regime do ditador Bashar Assad e manifestantes opositores que pede uma transição política. As autoridades afirmam que o pleito será mais livre que nos anos anteriores, mas a oposição organiza um boicote.
Com a incessante pressão interna e a violência nas ruas, a expectativa é de que o comparecimento da população às urnas seja muito baixo. A Síria se recusou a permitir a presença de observadores internacionais para a realização das eleições.
No domingo, mais confrontos foram vistos pelas ruas do país, aumentando a preocupação dos moradores especialmente de áreas que concentram a oposição, como a cidade de Homs.
Centenas de soldados desertores no sul da Síria entraram em combate contra forças leais a Assad em um dos maiores confrontos armados em nove meses de revoltas contra o regime, e uma greve fechou o comércio em um sinal da desobediência civil, segundo ativistas.