Os planos de Margarida são também desenhados, com diferentes contornos, por outras 24 pessoas com deficiência que formam a primeira turma do programa. Parte deles pode ter na própria Unimed a oportunidade de emprego. De acordo com o coordenador do Núcleo de Desenvolvimento Humano da Unimed, Júlio Cézar Gouveia de Souza, além da possibilidade de serem contratados pela cooperativa, os alunos do curso terão chances reais de trabalhar em outras empresas. A participação da Funsat se centra neste ponto. “Nossa parceria é, sobretudo, no encaminhamento ao mercado de trabalho”, informou a coordenadora do Núcleo do Trabalhador com Deficiência da Funsat, Eliene Rodrigues de Souza.
A necessidade de os trabalhadores deficientes entrarem no mercado pode ser dimensionada pela rapidez com que as 25 vagas foram preenchidas. Em menos de três horas de inscrição, já não havia mais vaga, de acordo com Eliene. Nesse processo, foi contemplada a maior variedade de deficiências. Assim, há no curso: sete pessoas com deficiência auditiva, seis deficientes físicos, cinco pessoas com baixa visão, quatro cadeirantes e três deficientes intelectuais.
Pioneirismo e lei
O programa é piloto e a ideia é ampliá-lo, agregando outras cooperativas. Segundo Júlio Cezar, a própria natureza do cooperativismo, com forte componente social, justifica a realização do projeto.
O programa colabora para o cumprimento efetivo da Lei 8.213/91, que estabelece cotas de emprego a pessoas com deficiência em empresas com cem funcionários ou mais. Apesar de já ter 20 anos, a lei ainda não é totalmente cumprida. Mais grave: há redução na quantidade de pessoas com deficiência no mercado formal – em Mato Grosso do Sul, o número de deficientes com carteira assinada caiu 40,88% em três anos, de 4.960 em 2007 para 2.932 em 2010, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego.
Outro olhar
Contratar deficientes é mais que cumprir a lei. Também não se trata de caridade. É oportunizar que as pessoas possam ser notadas não por suas deficiências, mas pelo que tem a oferecer. E a riqueza dessa oferta se torna ainda maior com a realização de cursos, como o da “Inclusão pela Educação”.
É este o olhar de Margarida vê a si mesma. “Minha deficiência nunca me atrapalhou no trabalho”, conta – ela já trabalhou como operadora de caixa, em vendas e como atendente de telemarketing.
As necessidades da filha de dez anos, que é especial (tem paralisia e é cadeirante), fizeram com que Margarida deixasse o emprego e buscasse a sobrevivência no artesanato. E fazendo arranjos para noivas, ela assegurou o sustento da família e pôde ficar mais tempo com as filhas. Hoje, Margarida tem disponibilidade ao trabalho fora, pois a filha com deficiência é atendida, em período integral, por uma instituição voltada a crianças especiais.
Margarida, guerreira como é, não restringe os planos ao emprego. Em seus projetos, há também a faculdade de Direito. Por enquanto não dá, pois as filhas estão pequenas. “Mas eu não mão dessa faculdade”, diz, enfática. Na primeira oportunidade, lá estará ela: em uma sala de aula de um curso de Direito.
Depois, será a vez da casa própria. “Quero deixar uma casa pra minhas filhas”. E o dinheiro para financiar esse projeto poderá resultar da atividade como advogada criminalista, área em que pretende atuar.
Emprego, faculdade e casa – projetos que, para Margarida, são bem concretos. Não há mágica. Há construção. E entre os tijolos necessários para o alicerce dessas obras, estão os conteúdos, os professores, as disciplinas, as apostilas... do curso que participa, na Unimed, com seus 24 colegas, também construtores de sonhos. E, como Margarida, também guerreiros.