O sinal analógico de telefonia chegou somente agora a uma região isolada do Pantanal, embora distante apenas 35 minutos de avião de Corumbá, e às comunidades locais – ribeirinhos do Rio Paraguai, que vivem da venda de isca e peixe – já sonham com a energia solar e com a internet. A conectividade digital também é uma realidade, mas ainda limitada às reservas e pousadas. Dona Joana Batista Gomes, 39 anos, vive há 22 anos na Barra do São Lourenço, a 220 km pelo rio da cidade, e cuida do telefone público (orelhão) instalado ao lado da escola municipal como se fosse sua propriedade. Ela é a líder da comunidade (244 pessoas) e sabe muito bem do valor daquele aparelho já descartado nos centros urbanos. Um serviço ainda essencial, que pode mudar e salvar vidas.
“Quando alguém ficava doente ou era picado por cobra, a gente não tinha como pedir socorro, era um Deus nos acuda”, lembra Joana, nascida no beira do rio São Lourenço, em Mato Grosso, merendeira da escola. O telefone mais próximo fica na sede do Parque Nacional do Pantanal, distante uma hora de canoa com moto rabeta, equipamento econômico e principal meio de locomoção dos ribeirinhos. A comunicação em pleno século 21 ainda é precária em grande parte do Pantanal de Corumbá, município com 64 mil quilômetros quadrados, dos quais pelo menos 70% dentro do bioma. Os pantaneitos, ainda usam rádios transmissores para falar com seus administradores e familiares na sede das fazendas. Em algumas regiões, o apagão é geral e os pantaneiros se comunicam por meio de recados transmitidos por emissoras de rádio.
A instalação do orelhão, em outubro, foi garantida por ação ajuizada pelo Ministério Público Federal, depois da recusa da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) alegando que as comunidades não poderiam ser classificadas como “localidades” devido a distância – até 300 metros - entre as casas, fora dos padrões definidos pelo órgão. Em julho, a Justiça Federal acatou a ação.