As histórias da escravidão contadas por gerações estão vivas na memória de Jair Vicente da Silva, de 57 anos: “Todo mundo era obrigado a trabalhar dia e noite na fazenda pra sustentar o patrão. Não tinha condição de ter liberdade”. Mais nítidas estão as lembranças das atividades que realizou até pouco tempo: “Eu trabalhava nas fazendas por aqui. Pegava empreita. Trabalhava o mês inteiro pra ganhar 400 reais”. Só depois de viver meio século que Jair passou a ter o trabalho valorizado – hoje, sua renda mensal chega a R$ 2 mil.
A valorização brota juntamente com as hortaliças, plantadas em um pedaço de terra na comunidade quilombola Chácara do Buriti, a 27 quilômetros da área urbana de Campo Grande.
Assim como ocorreu com Jair, outros quilombolas estão deixando trabalhos mal remunerados em fazendas e na cidade para se dedicarem à produção agrícola.
“De três anos pra cá, já voltaram de 30 a 40 pessoas pra trabalhar aqui”, estima Lucinéia de Jesus Domingos Gabilão, presidenta da Associação da Comunidade Negra Rural Quilombola Chácara do Buriti. O número é acentuado considerando que no lugar moram 27 famílias.
Esperar pelo primeiro ônibus no escuro da BR-163 fazia parte da rotina de Ilza Teodolino Domingos, 50 anos. “Tinha que pegar o ônibus bem cedo pra não chegar atrasada”, lembra-se. Ela trabalhava de doméstica em duas casas em Campo Grande.
“Está bem melhor. Essa horta foi uma porta que Deus abriu”, afirma Ilza. Ela trabalhava duas vezes por semana – às segundas e quartas feiras – para ajudar a colher as hortaliças.
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