A Polícia Federal deflagrou na manhã de hoje (19) a Operação Miquéias, nome de personagem bíblico que denunciava a corrupção dos poderosos, com o objetivo de desarticular duas organizações criminosas: uma de lavagem de dinheiro e outra de má gestão de recursos de entidades previdenciárias públicas. Esta é a primeira operação da história da PF a combater esse tipo de crime. Além de Mato Grosso do Sul, a ação ocorre no Distrito Federal e oito estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Amazonas e Rondônia. Mais de trezentos policiais cumprem 102 mandados judiciais, sendo cinco de prisão preventiva, 22 de prisão temporária e 75 de busca e apreensão. As investigações começaram há um ano e meio para apurar lavagem de dinheiro por meio da utilização de contas bancárias de empresas de fachada ou fantasmas, abertas em nome de “laranjas” ou “testas-de-ferro”, ocultando os verdadeiros responsáveis pelas movimentações.
Também foi identificada a existência de uma holding de empresas que consistia em um verdadeiro serviço de terceirização para lavagem do dinheiro proveniente de crimes diversos. Uma vez creditados nas contas bancárias das empresas investigadas, os valores ilícitos ficavam circulando pelas demais contas pertencentes à quadrilha até serem, enfim, sacados em espécie. Os “laranjas” e as “empresas” eram periodicamente substituídos por outros para não despertarem atenção dos órgãos de fiscalização. Nos dezoito meses de investigação, foram sacados mais de R$ 300 milhões nas contas dessas empresas. Até o momento, entre as inúmeras células criminosas da organização, foram individualizados três núcleos distintos que contavam, inclusive, com a participação de policiais civis do Distrito Federal, responsáveis pela “proteção” da quadrilha. Até o momento foram feitas 17 prisões: 14 em Brasília, uma em Goiás e duas no Rio de Janeiro. Esses fundos eram formados por “papéis podres”, decorrentes da contabilização de provisões de perdas por problemas de liquidez e/ou pedidos de recuperação judicial dos emissores de títulos privados que compõem suas carteiras.
Severos prejuízos foram verificados no patrimônio desses regimes próprios de Previdência Social. Os prefeitos e gestores dos regimes de previdência eram remunerados com um percentual sobre o valor aplicado. O esquema contava também com a intermediação de importantes lobistas que faziam o elo entre agentes políticos e a quadrilha. De acordo com a polícia, os líderes da organização desenvolviam o aliciamento de prefeitos e gestores de regimes próprios de Previdência Social a fim de que aplicassem recursos das respectivas entidades previdenciárias em fundos de investimentos com papéis pouco atrativos, geridos pela própria quadrilha e com alta probabilidade de insucesso. Foram verificadas irregularidades nos regimes próprios de Previdência Social das prefeituras de Ponta Porã e Porto Murtinho (MS), Manaus (AM), Queimados (RJ), Formosa (GO), Caldas Novas (GO), Cristalina (GO), Águas Lindas (GO), Itaberaí (GO), Pires do Rio (GO), Montividiu (GO), Jaru (RO), Barreirinhas (MA), Bom Jesus da Selva (MA), Santa Luzia (MA).