Vereador Chocolate, como gosta de ser chamado, Waldecy era próximo do prefeito, chamado, inclusive, de papagaio de pirata e sombra de Bernal, mas, logo no começo do mandato, optou por afastar-se do político. “No começo, tentei ajudar o prefeito, porque acreditava que poderia ser diferente, pensei que as coisas poderiam melhorar, mas não foi isso o que aconteceu, a situação começou a ficar um pouquinho ruim, tanto nos postos de saúde quanto nos bairros e nas merendas escolares faltando. Fui vendo tudo isso e fui recuando”, revela. Waldecy protagonizou um capítulo inédito na história política da Capital de Mato Grosso do Sul ao votar pela abertura da Comissão Processante contra o prefeito na Câmara Municipal. No dia seguinte, sua esposa foi exonerada do cargo que exercia na administração. “Eu sabia que isso, provavelmente, iria acontecer, pois o prefeito não iria aceitar minha opinião, não votei para cassá-lo, mas sim para dar o direito dele se defender”, explica.
CORREIO PERGUNTA O que levou ao estremecimento das relações com o prefeito?
Vereador Chocolate: No início, quando comecei a andar com ele, percebi que ele sempre era durão, é o jeito dele. Quando fui para a Câmara Municipal, já estava com vontade de recuar, mas esperei até fevereiro (quando começaram os trabalhos legislativos). Me afastei, fui vendo que o temperamento [de Bernal] era muito forte, mandão, de prepotência. Me afastei, ele achou estranho e começou a chamar minha atenção. Uma, duas, três vezes... na terceira, ele me chamou de burro, no meio das pessoas durante um evento, aí eu falei: espera aí, prefeito, o senhor tem que me respeitar como vereador, assim como eu o respeito como prefeito. Nunca fui na tribuna bater nele ou criticar, mesmo sabendo que tinha posto de saúde faltando médico. Ele estava me tratando como funcionário, se fosse para ser funcionário, eu continuava trabalhando onde estava antes. Agora, quem paga meu salário como vereador é o povo, por isso votava na Câmara contra as ideias do prefeito, mas a favor do povo.
Depois de se afastar do prefeito, você começou a ser perseguido nas redes sociais?
Isso começou no Facebook logo após eu me afastar do prefeito, antes mesmo do caso tomar conhecimento público. Por aí, já senti que as coisas começaram a mudar. Um deles inventou até que eu tinha molestado criancinhas. Se fala, tem que provar. Desde os meus 15 anos de idade, quando me tornei palhaço de circo e comecei a fazer apresentações, sempre procurei respeitar qualquer criança que seja, de um aninho até a idade que for. Peço para que essas pessoas parem de inventar coisas que não existem. Tomem cuidado. Não estou ameaçando, falo em questões judiciais, nossos advogados já estão cuidando disso.
O que motivou seu choro no plenário, depois de ser atingido por moedas pelos manifestantes?
Quando chorei no plenário, não foi por causa da moeda, foi porque não aguentava mais. Não aguentei ver crianças e pessoas sendo usadas. Passou um filme na minha cabeça, não fui eleito para isso, não foi por isso que queria ser vereador, então chorei. Senti vontade de chorar, estava preso e explodiu. É a forma que consigo me aliviar. Às vezes, choro na minha casa, com minha esposa como, por exemplo, quando ela [primeira dama da Capital] fechou minha esposa em uma sala para cobrar porque votei por isso ou aquilo.
Como é Alcides Bernal administrador?
Tentei ajudar o prefeito, porque acreditava que poderia ser diferente, pensei que as coisas poderiam melhorar, não foi isso que aconteceu, a situação começou a ficar um pouquinho ruim, tanto nos postos de saúde quanto nos bairros e nas merendas escolares faltando. Fui vendo tudo isso e fui recuando. Me decepcionei, pois preguei junto com ele uma mudança. Era cedo para criticá-lo, até onde fiquei calado. Esperei uma mudança, uma atitude diferente, mas não, o que eu vi foi a briga do prefeito com a Câmara, ou da Câmara com o prefeito. O povo foi esperando atitudes e ficou tudo amarrado, a cidade está parada. Na campanha, foi pregada uma grande mudança e até agora o povo não viu essa mudança.
Você estava mais próximo do prefeito. Nesse tempo, ele teve condições de fazer alguma coisa e, por algum motivo, não o fez?
Teria, se [o prefeito] tivesse trilhado o caminho da humildade. A campanha acabou, eu fui eleito vereador, assim como os outros 28. A partir daí, era hora de sentarmos juntos: vereadores, prefeito e secretários para discutir o que seria melhor para a cidade, sem envolver questões políticas. Estamos falando de Campo Grande, não de relação pessoal. Ele [Bernal] administrou com coração cheio de mágoa e rancor. Ele já é o prefeito, depois de eleito, tinha que se juntar com os 29 vereadores. O objetivo tinha que ser as pessoas. Não estou dizendo que o prefeito quis que faltasse merenda nas escolas ou remédio nos postos, mas poderia ter guardado em casa o coração com rancor e prepotência, ou seja, lá o que for, e administrar a cidade com a cabeça centrada no povo, melhorando a qualidade de vida das pessoas. Essa era a linha, esse era o pensar na campanha, essa era a forma que ele dizia.
No episódio da demissão de sua esposa, você esperava esse tipo de retaliação?
Achava que, talvez, ele não teria essa coragem. Ela [Cláudia, esposa de Chocolate] ficou sabendo pela imprensa que estava demitida. Eu sabia que isso, possivelmente, iria acontecer, até porque o prefeito não iria aceitar, eu tenho minha opinião. Eles [vereadores da base de Bernal] sabiam que eu ia para a tribuna, que eu não ia ficar quieto. Tentaram me impedir, conversaram comigo, dizendo que iriam tentar trazê-la de volta, mas com que cara ela ia voltar? Depois de ser humilhada e perseguida? Enquanto eu discursava na tribuna, eles estavam tentando recontratá-la, quando terminei, minha assessoria informou a recontratação da Cláudia. Então, eu disse: Muito obrigado, prefeito, mas minha esposa não vai querer voltar. Quero que fique claro que foi mérito dela o cargo, pois ela deixou um emprego para trabalhar com ele na Assembleia e foi para a prefeitura ajudar a primeira dama. Isso foi conversa dela com o prefeito. Não interferi.
Você acredita que o prefeito pode ser afastado e, consequentemente, cassado?
Não sou juiz, nem promotor, muito menos advogado. O que a gente vê pela imprensa é que ele pode correr o risco de ser afastado, caso atrapalhe as investigações. Foi feita a CPI [do calote], que apontou indícios de irregularidades. Sei que o prefeito vai ter 90 dias para se defender. Agora, se o prefeito, tem culpa ou não, não sou eu que vou dizer. Se acredito que vai ser cassado, não posso dizer, mas pelo encaminhamento que está sendo publicado pela mídia, parece que sim.
Como fica sua relação com o partido e possível expulsão?
Não recebi ligação de ninguém do partido. O vereador Cazuza [presidente do diretório municipal do PP] não falou nada disso comigo. Bernal [presidente regional] também não. Estou tranquilo quanto a isso. Se eu for expulso e perder meu mandato, vou seguir a minha vida normalmente. Não tenho preguiça de trabalhar. Se eu procurar emprego, sei que vou encontrar. Não tenho medo desse tipo de ameaça. Sou do partido, do PP, mas não sou do Bernal. Não é a minha vontade sair do Partido Progressista, mas se precisar, temos que pensar nessa possibilidade.
Você está sendo cobiçado por outras legendas?
Fui convidado por outros partidos, desde os grandes até os menores. Estou tranquilo quanto a isso. Tenho uns dias para me decidir. Se o prefeito não conseguir se defender ou for cassado, o vice é do PP, então não estou traindo o partido.
Qual será a sua posição, caso a Comissão Processante coloque a cassação do prefeito em votação no plenário?
Tem que ser analisado, se o povo estiver sendo prejudicado, vou manter a mesma linha de ficar ao lado da população. Fala-se em golpe político, não vejo como golpe, não cassei ninguém. Seria se tivesse cassado sem o prefeito ter direito de se defender. Se ele não tem culpa, se defenda.