Cresce no Brasil a proposta de cuidados paliativos, em que se procura oferecer uma assistência de qualidade a pacientes que estão fora de possibilidades de cura. O objetivo é controlar sintomas desconfortáveis e valorizar a vida, e não a própria doença. Dessa maneira, a pessoa pode ser tratada com respeito, dignidade e conforto em todas as fases da doença, de forma concomitante à terapia direcionada especificamente à sua enfermidade. Ouvido pelo Correio do Estado, o médico Maruãn Omais fala sobre essa modalidade de atendimento, que em grandes centros já é oferecido tanto em hospitais públicos quanto em
particulares.
CORREIO PERGUNTA: Nos últimos tempos muito se tem falado em cuidados paliativos, principalmente, em áreas como oncologia e geriatria. O que vem a ser isso?
MARUÃN OMAIS: “Cuidados paliativos (CP) é uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças que ameacem a continuidade da vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento. Requer identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual.” Esta é a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2002. O cuidado paliativo historicamente confunde com o hospice. O relato mais antigo que dispomos data do século V.
Se cuidados paliativos não estão voltados, necessariamente, para a cura da pessoa enferma, qual é então o seu foco?
Apesar dos esforços e dos conhecimentos acumulados, a morte continua sendo uma certeza e ameaça o ideal de cura e preservação da vida para o qual nós profissionais da saúde somos treinados ou nós seres humanos somos educados. Não se trata de cultivarmos uma postura de afronta a medicina tecnológica, a dita “tecnolatria”, mas sim para refletirmos sobre nossa conduta diante da mortalidade humana, baseando-se no equilíbrio necessário entre o conhecimento científico e o humanismo para que possamos resgatar a dignidade da vida e a possibilidade de morrer em paz. O foco é a pessoa doente, não só a doença. Inúmeras são as patologias sem possibilidades de cura: diabetes, anemia falciforme, hipertensão arterial, depressão, “enfisema pulmonar”, doença de Alzheimer, doença de Parkinson..., mas permitem que haja um controle da doença e uma abordagem de conforto, sem sofrimento para o doente. Invariavelmente escutamos de profissionais da área da saúde e de familiares: “agora não tem mais nada o que fazer!”. Pode-se não ter mais nada a se fazer para tratar a doença, mas para com a pessoa que está doente não há limites para se proceder o conforto do tratamento para a dor, náuseas, vômitos, tosse, coceira, suor, soluço, delírio, falta de apetite, insônia, dificuldade para evacuar, dificuldade para urinar, dificuldade para comer, integrar aspectos psicológicos e espirituais, suporte para que a pessoa doente possa viver o mais ativamente possível até o momento de sua morte. Morrer não deve ser um suplício e sim uma evolução natural da vida.
Como as famílias veem o programa de cuidados paliativos? Por acaso acham que a assistência médica está largando o paciente de mão?
Este é outro ponto a se observar, a relação do doente com o seu cuidador ou familiares, podendo ela ser benéfica ou não nos processos de adoecimento, morte e luto. Não é incomum esta conclusão. Como sabemos, a doença pode não ter mais como conduzir, mas jamais se deve permitir não cuidar do doente, suas crises, seus sofrimentos, suas angústias, seus medos, suas perspectivas. Isto também é válido para toda a família. O intuito do paliativista não é de ser paternalista.
A que tipo de pacientes (portadores de que doença) recomenda-se a aplicação dessa modalidade de atendimento?
CP devem estar presentes em todas as áreas da saúde, tais como oncologia, geriatria, pediatria, neurologia, reumatologia, fisiatria... É gente cuidando de gente, gente querendo cuidar de gente, não só de paciente.
Cuidados paliativos são prestados por uma equipe multidisciplinar, tanto no contexto hospitalar quanto em domicílio. Quais os profissionais que integram esse grupo?
Ouvimos muito hoje em dia este contexto: “equipe multidisciplinar.” Mas não é o ideal. Termos vários profissionais inseridos no cuidar de alguém, sem uma interface de comunicação entre eles, constitui a multidisciplinaridade, que é falha! Necessitamos, sim, de vários profissionais na assistência, médicos nas especialidades que se fizerem necessárias, psicólogos, fisioterapia, fonoaudiologia, odontólogos, enfermagem, assistente social, nutricionista, farmacêutico, terapeuta ocupacional, capelão, inseridos numa interface de comunicação plena, para sempre podermos agregar na atenção a quem precisa. A equipe precisa se comunicar respeitando a individualidade e a necessidade de cada pessoa. A isto chamamos de equipe interdisciplinar. O que buscamos é que haja um grupo interdisciplinar, multiprofissional e intersetorial. A preparação dos profissionais para um atendimento domiciliar constitui um desafio nos dias atuais. Não deveria. Mas este tipo de abordagem, como todas as outras, deve ser pautado de forma franca, honesta, verdadeira, serena em todas as questões relativas ao diagnóstico, ao prognóstico e o planejamento de todos os cuidados. Uma grande vantagem desta situação é serem atendidas as suas preferências sem a necessidade da rigidez de regras e horários de um hospital.
Qual a importância de se levar também em consideração a espiritualidade do paciente na abordagem paliativa?
Importante ressaltar que quando falamos de espiritualidade não estamos falando de religião. A religião tem suas escrituras, dogmas, regras, mandamentos, que tem de ser respeitados, independentemente de qual seja ela. No entanto, a espiritualidade exprime mais espontaneidade, associada ao amor, inspiração, integralidade, profundidade, mistérios, complexos, sempre de caráter mais pessoal. A morte é a única certeza de nossa vivência. A questão é como iremos encará-la. A discussão que devemos ter é sobre a qualidade de vida e a qualidade do morrer. Aos ditos assistentes espirituais damos o nome de serviço de capelania.
Essa composição revela que a pessoa não deve ser assistida apenas em sua dimensão físico-biológica, mas também em seus componentes social, psicológico e espiritual?
Este é o princípio da assistência paliativista. Uma abordagem holística, global e completa da pessoa doente. O termo dor total veio para referendar este tipo de abordagem, primariamente descrita por Cicely Saunders na década de 1960. Vem para integrar e avaliar as razões orgânicas, o fator emocional, o lado social e o espiritual. Interpretar e permitir que a pessoa doente expresse a sua doença dentro do contexto que a envolve, à luz de seus afetos e crenças conscientes ou inconscientes.
Sabe-se que cuidados paliativos eram apregoados desde a década de 1960 pela médica, enfermeira e assistente social inglesa Cicely Saunders, e também pela psiquiatra sueca Elisabeth Kübler-Ross. Porque só agora o interesse pelo tema começa a crescer no Brasil?
CP é a base da estrutura da assistência a saúde. Ela existe desde o primórdio de nossa existência, em que primávamos em cuidar do doente, não só da doença. A dita versão moderna dos CP veio após a aproximação destas duas ressuscitadoras do tema, quando se encontraram nos EUA na década de 1970. No Brasil o interesse é de longa data, desde a década de 1980, pelo menos teórico.
O que falta para que a paliação se torne uma prática regular nos estabelecimentos de saúde do Mato Grosso do Sul, particularmente naqueles que atendem pacientes sem possibilidade de cura?
Temos muitos profissionais com conhecimento e habilidades para trabalhar num serviço de CP. Porém, o que existe é a dificuldade em se trabalhar num contexto interdisciplinar. Um serviço de CP não demanda grandes investimentos tecnológicos. Demanda gente que queira cuidar de gente.
Isso passa pela necessidade de maior ênfase do assunto em cursos de formação como de Medicina, Enfermagem, Psicologia e Serviço Social?
Tudo passa por uma formação adequada, por uma educação e formação de qualidade. Amadorismos não devem ter espaço, principalmente no que tange a abordagem da pessoa humana. Isto poderia começar pela discussão ampla e irrestrita sobre distanásia, ortotanásia e eutanásia. Em cuidados paliativos buscamos somente a ortotanásia.