Doutora em Ciências Sociais, a jovem professora Esther Solano Gallego participou de um debate esta semana na Capital, que contou com a participação de estudantes e contingente da Polícia Militar (para quem já havia ministrado palestra). Na ocasião, ela falou sobre a crise da legitimidade do modelo político brasileiro, da necessidade dos jovens se posicionarem contra algo que não os representa, sobre a violência instalada entre os Black Blocs e a polícia e qual o grande desafio do País diante dessas manifestações de massa. Temas, estes, reunidos nesta entrevista ao Correio do Estado.
CORREIO PERGUNTA - O ano de 2013 termina marcado pelas manifestações populares nas ruas de todo o País. Como a senhora define este clamor social, que começou com o movimento do passe livre?
ESTHER SOLANO GALLEGO - Existe um claro descontentamento da população sobre como a política é conduzida e sobre as condições estruturais do País. Segundo uma pesquisa realizada recentemente pela FGV, 95,1% dos brasileiros não confia nos partidos políticos, e 81,5% não confia no Congresso Nacional, ou seja, uma tremenda crise de legitimidade do modelo político que se junta a uma insatisfação geral sobre a precariedade das condições da educação, saúde, mobilidade urbana e segurança pública, principalmente.
Dá para comparar os movimentos de hoje com o Maio de 68 ou a Primavera Árabe, por exemplo?
Podemos comparar quanto a serem momentos de expressão clara da insatisfação popular. O movimento Occupy, os Indignados da Espanha, a Primavera Árabe, respeitadas as diversas particularidades nacionais, formam parte de uma onda internacional que está apresentando novos modelos sociais, onde os jovens deslegitimam, contestam uma política tradicional, desgastada com a qual não se sentem representados.
Junto com as manifestações surgiram os Black Blocs, que se autodefinem como pessoas que lutam contra o descaso público. A senhora considera a ação deles legítima, mesmo acompanhada de quebra-quebra e de gente ferida?
Meu papel como pesquisadora não é legitimar ou emitir julgamentos. Dialogo com eles para entender suas motivações sem estigmatizar. O Black Bloc representa um fenômeno social que está provocando grandes desafios institucionais e devemos nos esforçar por entender. Converso também com os policiais militares, paralelamente, para conhecer sua dinâmica, suas formas de atuação e suas opiniões. A pesquisa pretende não ser ideológica ou enviesada, ouvindo e debatendo com todas as partes envolvidas. Quero sair dessa dicotomia “manifestante baderneiro, PM violenta”. Esse é o papel da academia, apresentar um debate sério e não cair em demagogias ou maniqueísmos que em nada contribuem à sociedade.
A senhora acredita que este fenômeno remete-nos à crise do atual modelo institucional da democracia representativa, que não está conseguindo responder às demandas de participação dos cidadãos?
Sem dúvida. Para mim o Black Bloc é um sintoma. Por um lado, um sintoma dessa profunda crise social (não só política) que muitos autores denominam como crise da pós-modernidade, que desafia conceitos como autoridade, hierarquia ou liderança. As estruturas políticas não estão sabendo dar conta destes novos paradigmas sociais. Por outro lado, também é sintoma do lugar da violência no Brasil. Muitos destes jovens me disseram que, para eles, a violência é a única forma de dialogar com o Estado, de serem ouvidos, de se expressar. Eles aprenderam que a violência pode ser usada como instrumento político.
Qual o perfil destes grupos? Maioria homens ou mulheres e onde ele está concentrado com maior força?
A atuação da tática Black Bloc é mais preeminente no eixo urbano Rio de Janeiro-São Paulo. Vale contextualizar que minha pesquisa se realiza em São Paulo, então, posso responder sobre a realidade de lá. Embora encontremos perfis variados, a maioria dos jovens são homens, de classe média baixa. A periferia praticamente ausente do Black Bloc de SP, diferente do Rio, onde o movimento tem um maior grau de heterogeneidade socioeconômica.
Mesmo parecendo tão organizados, os Black Blocs parecem se dividir entre aqueles que não apoiam a violência, principalmente contra a polícia e os que pensam exatamente o contrário. Isso existe mesmo?
Entre eles existem divergências de entendimento sobre o que significa a tática Black Bloc. Um deles me disse um dia: “Todos nos vestimos igual, mas nem todos pensamos igual”. Tem aqueles que são a favor de uma ação violenta mais pesada e outros que defendem uma ação mais leve, mas, de forma geral, existe um sentimento de aversão à corporação da polícia militar. A PM representa, para muitos deles, o grande vilão da história, funciona como catalisador da raiva do movimento. A dinâmica dos protestos foi se polarizando cada vez mais e acabou se transformando num enfrentamento entre os Black Bloc e a PM.
Fazendo uma comparação, indígenas e produtores rurais vivem em conflito há anos em MS, mas segundo eles a culpa é do governo federal, que deveria resolver o problema, mas anda a passos de tartaruga. No caso dos Black Blocs, eles são um caso de polícia ou de política?
Claramente não é um problema nem só de polícia nem só de segurança pública. É uma questão de política. Como já disse, os Black Bloc são um sintoma de um modelo político e partidário que deve se repensar e se renovar. Minha preocupação é que os poderes públicos sumiram de cena, não deram respostas, não se posicionaram e colocaram a responsabilidade das manifestações nas polícias (responsabilidade que não é só delas). O governo só está agindo desde a ótica do Estado penal, formando uma força-tarefa de investigação, propondo uma legislação mais dura, mas vejo pouca vontade de atuar também em outra dimensão, a dimensão das reformas estruturais que a população está reclamando. Enquanto não se levarem a cabo estas reformas, escutando as demandas das ruas, os movimentos de protesto, de uma ou outra forma, com um ou outro nome, continuarão.
A senhora é uma estudiosa dos movimentos de rua há quanto tempo e por quê?
Na verdade comecei a estudar estes movimentos depois das manifestações de junho. As pessoas falavam, escreviam rios de comentários em jornais, em meios acadêmicos, mas, de fato, eram poucos os que estavam acompanhando os fenômenos na rua. Pensei que era urgente sair do meu “castelo” universitário e ir para as ruas porque as pessoas estavam reivindicando lá, ocupando o espaço público. Preocupa-me muito essa posição pseudointelectual presente na academia que observa a sociedade de longe, mas que depois se permite o luxo de emitir julgamentos. Dessa forma, acaba caindo em dogmas, imposições intelectuais e autoritarismos, ou seja, justo o contrário do papel que deveria ter. Eu queria entender os jovens Black Bloc, assim como queria entender a polícia. Entender, para mim, significa enxergar o outro, escutar o que o outro tem para falar. Sair de meu microcosmos para dialogar com o outro.
A senhora veio a Campo Grande ministrar palestra para coronéis da PM. Qual o ponto principal abordado junto a este contingente? Falou-se em desmilitarização?
Foi uma experiência muito positiva. Falamos muitos sobre os fatores políticos e sociais das manifestações, sobre o papel, às vezes, paradoxal da polícia. Eles compartilhavam muitas das minhas inquietações. Foi um debate muito rico. Sim, falamos sobre desmilitarização. Na minha opinião, está se tratando desse assunto como se fosse a grande panaceia, se transformou num mantra. Todo movimento social hoje em dia clama pelo fim da PM, como se isso fosse resolver os problemas da segurança pública no País. Não vai. O debate é muito mais complexo, passa por refletir sobre nosso modelo social, sobre as múltiplas formas de violência estrutural que reproduzimos diariamente, sobre a desigualdade... A reflexão sobre a violência não deve ser canalizada só numa discussão sobre polícia, devemos ir muito além e pensar nas bases de nosso modelo social.
Qual o grande desafio do País, em sua opinião, diante destas manifestações de massa?
2014 vai ser um ano bem conturbado. Vamos ter juntas duas “neuroses coletivas”. Por um lado as eleições e por outro a Copa. Corre-se o risco de que as manifestações e a questão do gerenciamento na segurança delas seja politizado com fins eleitorais e não seja aproveitado o momento para um debate mais sério, técnico e não ideológico. Acho que os diversos poderes públicos devem começar a pensar em renovações urgentes, em mudanças sistêmicas que consigam responder aos anseios da população. O desafio, portanto, não é meramente policial, é um desafio fundamentalmente político. Veremos se nossos representantes estão à altura das circunstâncias.